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Em uma década, a posse de celular na África Subsaariana saltou de 5% para 70% da população. No mesmo período e na mesma região, menos de 5% das pessoas que precisam de cuidados paliativos conseguem acessá-los. Uma revisão de escopo publicada em 2026 na revista BMC Palliative Care mapeou 35 estudos sobre o uso de saúde móvel, mHealth, em cuidados paliativos na região, e o contraste entre esses dois números é o ponto de partida mais honesto para entender o que essa tecnologia pode, e não pode, fazer sozinha.
O que é saúde móvel e como ela entrou nos cuidados paliativos
mHealth, ou saúde móvel, é a prática médica ou de saúde pública apoiada por dispositivos portáteis, celulares, tablets ou sensores vestíveis. Na revisão conduzida por Ndinawe, Kabakyenga, Namukwaya, Mulogo e Nagujja, pesquisadores ligados à Mbarara University of Science and Technology, à Makerere University e à Hospice Africa Uganda, essa definição foi aplicada a intervenções voltadas a pessoas com doenças que ameaçam a vida, como câncer, doença renal avançada, doença respiratória crônica, doença cardiovascular e diabetes, além de profissionais de saúde, agentes comunitários voluntários e lideranças locais.
As intervenções mapeadas usam, principalmente, aplicativo (cerca de um terço dos estudos) e mensagens de texto (SMS), seguidas por ligação telefônica e telemedicina. Sensor vestível aparece em apenas um dos 35 estudos, a categoria menos frequente. Elas foram aplicadas para fortalecer o acesso ao cuidado, oferecer suporte psicossocial a pacientes e famílias, melhorar a adesão a consultas e medicamentos, apoiar o manejo de sintomas e capacitar profissionais de saúde em cuidados paliativos.
O que uma revisão de escopo pode, e não pode, dizer
É importante nomear com precisão o tipo de estudo. Uma revisão de escopo, conduzida aqui segundo a metodologia do Joanna Briggs Institute e relatada conforme o checklist PRISMA-ScR, mapeia o que existe sobre um tema, não testa se uma intervenção funciona. Os critérios de inclusão seguiram o framework PCC, participantes, conceito e contexto, e permitiram qualquer desenho de estudo: qualitativo, quantitativo ou misto. O resultado é revelador nesse próprio ponto: dos 35 estudos incluídos, apenas 4 eram ensaios clínicos randomizados, o único desenho capaz de testar efeito de uma intervenção com rigor. Os demais são qualitativos, de métodos mistos, coortes prospectivas, transversais ou de outros desenhos observacionais.
Os próprios autores registram essa limitação de forma explícita: como revisão de escopo, o estudo não avaliou risco de viés nem a qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que significa que os achados mapeados não foram filtrados por qualidade, apenas reunidos e descritos. Tratar essa revisão como prova de que a saúde móvel melhora o cuidado paliativo seria uma extrapolação que o próprio desenho do estudo não sustenta.
Onde a evidência foi encontrada, e onde ela ainda não existe
Dos 224 artigos inicialmente identificados, 35 passaram por todas as etapas de triagem e compuseram a amostra final, descrevendo 34 intervenções distintas em 12 países da África Subsaariana. Uganda concentra o maior número de estudos, seguida por Nigéria, Etiópia, Malawi, Quênia, África do Sul, Tanzânia, Zâmbia, Namíbia, Camarões e Lesoto. A região tem 48 países. Isso significa que apenas um quarto deles aparece nesta revisão com alguma intervenção de saúde móvel documentada em cuidados paliativos, uma conclusão registrada pelos próprios autores.
Essa concentração geográfica importa porque revela uma segunda camada de desigualdade, além da lacuna entre posse de celular e acesso a cuidados paliativos: o próprio conhecimento sobre o que funciona, e onde, está distribuído de forma desigual dentro da região. Populações e sistemas de saúde de países que não aparecem no mapeamento seguem, na prática, invisíveis para quem lê apenas esta síntese de evidências.
O processo de seleção também merece registro, porque explica a origem desses 35 estudos. Dos 224 artigos identificados nas bases de dados e em buscas manuais, 34 duplicatas foram removidas, restando 190 títulos e resumos triados por dois revisores independentes. Desses, 125 foram excluídos ainda nessa fase, e 65 avaliados em texto completo, dos quais 30 acabaram excluídos por não focarem em cuidados paliativos, por terem sido implementados fora da África Subsaariana, ou por serem revisões cujos estudos primários já constavam na amostra. Quanto a quem essas intervenções pretendiam alcançar, a maioria teve como população-alvo pessoas com câncer, cerca de 59% dos estudos, seguidas por profissionais de saúde, um público-alvo misto e, com menor frequência, cuidadores familiares e estabelecimentos de cuidados paliativos como unidade de análise.
O que ajuda, o que atrapalha, e o que funciona de forma desigual
Os estudos mapeados identificam facilitadores recorrentes: ampla posse de celular, conectividade razoável, alta aceitação entre pacientes e profissionais, e disposição das equipes de saúde em adotar ferramentas digitais. As barreiras também se repetem: fornecimento irregular de energia elétrica, risco percebido à privacidade e confidencialidade dos pacientes, analfabetismo, e o custo da própria ligação telefônica, uma barreira concreta mesmo quando o aparelho já está disponível, identificada por Grant e colaboradores em estudo conduzido no Quênia, em Uganda e no Malawi.
Entre os quatro ensaios clínicos randomizados incluídos na revisão, os resultados divergem de um jeito que qualquer leitura séria precisa preservar. Em Uganda, um estudo conduzido por Siedner e colaboradores com pessoas vivendo com HIV em zona rural identificou o letramento como preditor robusto da capacidade de receber, identificar e responder adequadamente a mensagens SMS, e mostrou que mensagens codificadas foram tão eficazes quanto mensagens diretas, uma forma de preservar privacidade sem perder efetividade. Na África do Sul e no Malawi, o ensaio multicêntrico StAR2D não encontrou evidência suficiente de que mensagens de texto bem desenhadas melhorassem o controle glicêmico em pessoas com diabetes tipo 2. Já na Etiópia, lembretes diários baseados em gráficos e mensagens de texto melhoraram significativamente a adesão ao tratamento de tuberculose, segundo Gashu e colaboradores, e o estudo SELFTB, também etíope, relatou adesão não inferior, e em algumas medidas superior, no grupo que usou um dispositivo digital de lembrete comparado ao tratamento diretamente observado, o padrão convencional. Um quinto estudo controlado, mas de desenho quase-experimental, não randomizado, mostra o outro lado da mesma moeda: também em Uganda, um lembrete por SMS não reduziu o abandono do tratamento de tuberculose no curto prazo, segundo Hermans e colaboradores.
A leitura honesta desses quatro estudos não é que a tecnologia funciona ou não funciona. É que o resultado depende do desenho da intervenção, da doença tratada e do contexto local, e que generalizar qualquer um desses achados isolados para “o mHealth em cuidados paliativos” seria distorcer o que cada estudo, de fato, mediu.
O que o CUIDAR+ vê
Sob o princípio da Honestidade Científica, o primeiro ponto a reter é a fronteira entre mapeamento e prova. Esta revisão mostra o que já existe e como está distribuído, não se essas intervenções melhoram desfechos clínicos ou reduzem sofrimento, e mesmo dentro do pequeno subconjunto de ensaios clínicos randomizados mapeados, os resultados são mistos.
Sob a Clínica Ampliada, o achado mais estrutural do artigo é também o mais simples de enunciar: a infraestrutura de telefonia já alcançou a grande maioria da população da África Subsaariana, mas o sistema de saúde não acompanhou esse alcance com cuidado paliativo disponível. Isso não é, fundamentalmente, um problema de tecnologia insuficiente. É um problema de organização e priorização do cuidado dentro do sistema de saúde, algo que nenhuma quantidade de aplicativos ou mensagens de texto resolve sozinha se não vier acompanhado de profissionais formados, tempo de atendimento e estrutura de resposta do outro lado da linha.
Sob a Centralidade no Paciente, a concentração da evidência em apenas 12 dos 48 países da região é um lembrete de que “a África Subsaariana” não é um bloco homogêneo, e que comunicar este achado exige cuidado para não apagar essa desigualdade interna sob uma média regional que não existe na prática de cada país.
Aplicação à realidade brasileira
O Brasil não é a África Subsaariana, e transportar diretamente os achados desta revisão para o SUS exigiria um mapeamento equivalente feito aqui, que este artigo não substitui. Ainda assim, dois pontos estruturais dialogam diretamente com desafios já conhecidos do sistema de saúde brasileiro. O primeiro é a mesma lacuna entre infraestrutura de conectividade e estrutura de cuidado: o Brasil tem cobertura de telefonia móvel extensa, inclusive em programas consolidados de telessaúde, mas cuidados paliativos ainda são incipientes fora dos grandes centros urbanos, com cobertura desigual entre regiões e frequentemente concentrados em poucos serviços especializados. Ampliar o acesso digital sem investir, na mesma proporção, em equipes de Atenção Primária e Estratégia Saúde da Família capacitadas para cuidados paliativos repetiria, em outro continente, o mesmo padrão que este artigo documenta.
O segundo ponto é metodológico, e vale para qualquer país: antes de adotar uma solução de saúde móvel como política pública, é preciso perguntar que tipo de evidência a sustenta. Um mapeamento como este mostra o que está sendo tentado e onde, uma informação valiosa para orientar prioridades de pesquisa e investimento, mas não substitui ensaios clínicos bem desenhados, com poder estatístico adequado e avaliação de risco de viés, antes de generalizar qualquer intervenção específica como parte do cuidado padrão. A saúde móvel pode ampliar o alcance do cuidado paliativo, no Brasil como na África Subsaariana, mas apenas quando construída sobre a mesma base que qualquer outro cuidado de saúde exige: evidência, estrutura e gente formada para responder quando o telefone toca.
Baseado em: Ndinawe JB, Kabakyenga J, Namukwaya E, Mulogo EM, Nagujja F (2026). Identification and mapping of mHealth interventions applied in palliative care in Sub Saharan Africa: a scoping review. BMC Palliative Care 25, 76. DOI: 10.1186/s12904-026-02034-y. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro (Medicina Interna, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).