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No primeiro mês de cuidados paliativos, a dor recua, a falta de ar diminui, o cansaço cede um pouco. A angústia, quase não se move. Essa é a fotografia que emerge de um estudo publicado em 2026 na revista Medicine, que acompanhou 134 pessoas com câncer avançado admitidas no departamento de cuidados paliativos de um hospital oncológico de Ho Chi Minh City, no Vietnã, por até 11 meses. O achado central não é que os cuidados paliativos ajudam, isso os próprios autores já esperavam encontrar. É a assimetria: no mesmo mês, na mesma escala, no mesmo estudo, o corpo melhora muito mais depressa do que a mente. E a explicação que os pesquisadores oferecem para essa diferença diz menos sobre biologia e mais sobre como os serviços de saúde são organizados.
Como a pesquisa foi feita
O estudo, assinado por Mai, Trinh, Do, Uong, Lin e Harding, é um estudo observacional longitudinal prospectivo, uma coorte de braço único, sem grupo controle. Entre julho de 2020 e janeiro de 2022, 145 pacientes foram admitidos no serviço; 134 permaneceram na análise final, cada um avaliado ao menos duas vezes. No total, 484 observações foram coletadas ao longo do acompanhamento, com entrevistas presenciais na admissão e, na maioria dos meses seguintes, por telefone. O instrumento central foi a versão vietnamita da APCA POS (African Palliative Care Association Integrated Palliative Outcome Scale), um questionário de 16 perguntas que mede sintomas físicos, emocionais, sociais e espirituais em uma escala de 0 a 5, na qual nota mais alta significa pior estado. Uma queda de pontuação ao longo do tempo é, portanto, uma boa notícia.
Uma coorte, não um ensaio clínico
É importante demarcar o que este desenho de estudo permite e o que não permite dizer. Todos os 134 pacientes receberam cuidados paliativos: não há comparação com um grupo que não recebeu esse cuidado. O estudo descreve uma trajetória, não testa uma hipótese de causa e efeito. Os próprios autores usam, no resumo e na conclusão, a formulação “cuidados paliativos podem melhorar os desfechos de saúde”, com o verbo modal explícito. É essa mesma cautela que orienta este texto: os achados aqui descritos estão associados ao período de acompanhamento em cuidados paliativos, não comprovadamente causados por ele. Vale registrar ainda que a amostra não era formada só por pessoas em fim de vida iminente: 43,3% dos pacientes estavam em fase estável da doença no momento da admissão, o que reforça um ponto central da literatura em cuidados paliativos: esse cuidado pode, e deve, começar muito antes do fim da vida, como camada que se soma ao tratamento, nunca como substituição dele.
O corpo melhora antes da mente
O achado que dá nome a este artigo aparece já no primeiro mês de acompanhamento. Partindo de uma pontuação inicial estimada em 15,13 na subescala física, os sintomas físicos caíram 5,72 pontos no primeiro mês. Na subescala emocional, partindo de uma base de 9,72, a queda foi de apenas 0,96 ponto, no mesmo mês, no mesmo instrumento, na mesma coorte de pacientes. O padrão se sustenta quando se olha para todo o período de acompanhamento: no modelo estatístico ajustado por idade, diagnóstico e saúde do cuidador, o escore total de sintomas caiu, em média, 4,6 pontos por mês, dos quais 2,78 pontos vieram da subescala física e apenas 0,58 ponto da subescala emocional. Problemas de comunicação e psicossociais caíram 1,03 ponto por mês, um ritmo intermediário entre os dois extremos.
Os próprios pesquisadores oferecem uma explicação direta para essa assimetria, e ela está no modelo de serviço, não no paciente: no Vietnã, segundo os autores, a equipe de cuidados paliativos se concentra principalmente em avaliar e controlar os sintomas físicos do câncer avançado, enquanto a oferta de aconselhamento psicológico estruturado para pacientes e famílias permanece limitada. Um achado complementar, descrito na Figura 2 do artigo, reforça essa leitura: a dimensão emocional que mais melhorou ao longo do estudo foi “sentir que a vida vale a pena”, que caiu de 2,3 para 0,6 ponto, um recuo importante, mas que exigiu bem mais tempo para se manifestar do que a resposta rápida observada na dor, na falta de ar e na fadiga física.
Uma melhora que desacelera com o tempo
A trajetória ao longo dos 11 meses de acompanhamento não é uma linha reta descendente. O escore total, partindo de uma constante estimada de 32,24 pontos na admissão, caiu para uma variação acumulada de -18,80 pontos por volta do nono mês, o ponto de melhor resultado registrado no estudo, e depois voltou a subir parcialmente, fechando o décimo primeiro mês em -13,25 pontos de variação acumulada. Um modelo estatístico quadrático, testado especificamente para essa questão, teve ajuste significativamente melhor que o modelo linear simples, sugerindo que a melhora desacelera e, em parte, reverte ao final do acompanhamento.
Os autores discutem essa reversão parcial associando-a à progressão natural da doença e a um fenômeno estatístico conhecido como viés de sobrevivência: dos 134 pacientes, 102 (76,1%) morreram ao longo do período estudado, e apenas 19 permaneceram no estudo a partir do mês seis. Quem chega aos meses finais do acompanhamento é, em boa parte, quem sobreviveu mais tempo à doença, e não necessariamente quem teve a melhor resposta ao cuidado, o que pode distorcer a leitura dos últimos pontos da curva. Os próprios autores classificam essa possível perda de dados como não aleatória, o que, segundo eles, pode ter enviesado os resultados dos meses finais, e recomendam, para estudos futuros, o uso de métodos estatísticos mais robustos para lidar com esse tipo de perda de acompanhamento ligada à gravidade do quadro.
A saúde de quem cuida também está em jogo
O estudo não avaliou só os pacientes: também acompanhou os cuidadores informais, na maioria mulheres (70,9%), com idade média de 47,2 anos e dedicação de quase 20 horas por dia, em média, ao cuidado da pessoa doente. Quase três quartos desses cuidadores (71,6%) avaliaram a própria saúde como pior ou muito pior que a da maioria das pessoas. E o estado de saúde do cuidador não ficou isolado dessa equação: no modelo estatístico, cuidadores com saúde classificada como razoável ou ruim estiveram associados a escores emocionais e de comunicação piores no paciente que cuidavam, embora essa mesma associação não tenha aparecido nos escores físicos. É um achado que amplia a moldura do próprio estudo: o bem-estar de quem cuida não é uma questão paralela à do paciente, é parte mensurável da mesma equação de cuidado.
Outro detalhe metodológico merece registro: em 56,7% dos casos, quem respondeu ao questionário sobre o sofrimento do paciente foi um familiar, não o próprio paciente. O artigo relata que os escores autorrelatados começaram, na linha de base, mais baixos que os relatados por terceiros, uma diferença qualitativa que o próprio artigo não quantifica, mas que reforça um ponto de honestidade metodológica: quando o paciente já não consegue, ou não está disponível para responder, é a percepção de quem cuida que preenche a lacuna, e essa percepção não é neutra.
O que o CUIDAR+ vê
Sob o princípio da Clínica Ampliada, o dado mais revelador deste estudo não é a melhora em si, é a diferença de ritmo entre suas duas metades. Um serviço pode aliviar dor, falta de ar e fadiga com relativa eficiência e, ainda assim, deixar a dimensão emocional do adoecimento praticamente intocada nas primeiras semanas, não porque o sofrimento emocional seja menos real, mas porque a estrutura do serviço foi organizada para responder primeiro ao que tem protocolo mais definido. A assimetria descrita neste artigo não é sobre o paciente reagir devagar à angústia, é sobre o que uma equipe de saúde consegue endereçar com os recursos que tem disponíveis.
Sob a Centralidade no Paciente e da Família, o achado sobre a saúde do cuidador amplia quem, exatamente, deveria estar no centro do cuidado paliativo. Um cuidador que dedica quase 20 horas por dia à pessoa cuidada, e cuja própria saúde debilitada está associada a piores escores emocionais no paciente, não é um coadjuvante da equação clínica: ele integra a unidade de cuidado. Cuidar de quem cuida deixa de ser um gesto de gentileza institucional e passa a ser, à luz destes dados, parte do próprio tratamento do paciente.
Sob a Honestidade Científica, é preciso repetir o que o desenho do estudo permite e o que não permite afirmar. Sem grupo controle, sem randomização, com 76,1% de mortalidade ao longo do acompanhamento e com quase todos os dados dos meses finais vindos de apenas 19 pacientes, este é um retrato de trajetória, não uma prova de eficácia comparativa. O próprio artigo é cuidadoso ao afirmar apenas que os cuidados paliativos “podem melhorar” os desfechos de saúde, nunca que os garantem ou os causam. Transformar essa associação cautelosa em promessa de resultado distorceria exatamente o tipo de evidência que este estudo, com transparência sobre seus próprios limites, se propõe a entregar.
Do Vietnã para o cuidado oncológico no Brasil
Transportar esse achado para a realidade brasileira exige, antes de tudo, dimensionar a escala do problema. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023-2025, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste, que respondem por cerca de 70% da incidência nacional. É uma população potencialmente elegível para cuidados paliativos oncológicos em algum momento da trajetória da doença, muito maior do que os 134 pacientes acompanhados neste estudo vietnamita, e distribuída de forma desigual pelo território nacional.
A Resolução nº 41/2018 da Comissão Intergestores Tripartite já incorporou formalmente os cuidados paliativos à Rede de Atenção à Saúde do SUS, reconhecendo esse cuidado como parte da atenção integral a pessoas com doença que ameaça a vida. O texto normativo prevê equipe multiprofissional, incluindo psicologia e serviço social, não apenas a dimensão médica e de enfermagem. A pergunta que este estudo vietnamita deixa para qualquer serviço de cuidados paliativos, inclusive os brasileiros, é bastante concreta: a equipe tem, na prática, tanta capacidade instalada para responder à angústia quanto tem para responder à dor? Ou o suporte psicológico e social existe no papel, mas segue sendo o elo mais fino da rede assistencial, o mesmo padrão que os pesquisadores vietnamitas encontraram em Ho Chi Minh City? Enquanto a resposta a essa pergunta variar entre serviços e regiões do país, o achado central deste estudo seguirá sendo um convite direto à autoavaliação: medir não apenas se o corpo está sendo cuidado, mas se a mente está sendo cuidada no mesmo ritmo.
Baseado em: Mai T, Trinh O, Do D, Uong N, Lin C-P, Harding R. Health outcomes of cancer patients during the first year following admission to palliative care: a longitudinal study in Ho Chi Minh City, Vietnam. Medicine. 2026;105(29):e49840. DOI: 10.1097/MD.0000000000049840. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro (Medicina Interna, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).