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Existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre saúde pública: e se cuidar melhor de quem está no fim da vida custasse menos, não mais? Um estudo de modelagem econômica publicado em 2026 na revista Palliative Medicine, conduzido por pesquisadores do King’s College London, da Universidade de Leeds e da Universidade de Hull, respondeu a essa pergunta com dados reais do sistema de saúde inglês. O resultado desafia uma suposição comum: cuidados paliativos especializados, tanto em casa quanto no hospital, reduziram custos e, ao mesmo tempo, melhoraram a qualidade de vida das pessoas atendidas.
O que o estudo avaliou, e por que a modelagem importa
Diferente de um ensaio clínico tradicional, este é um estudo de modelagem de decisão em saúde: um método que combina dados de diferentes fontes, entre elas revisões Cochrane sobre os efeitos de cuidados paliativos especializados no local de óbito e na qualidade de vida, para estimar o que aconteceria em cenários onde faltam dados diretos suficientes. Os próprios autores explicam por que essa abordagem era necessária: revisões sistemáticas anteriores sobre economia de cuidados paliativos identificaram a ausência de estudos de modelagem como uma lacuna fundamental na evidência disponível.
Os pesquisadores construíram modelos de Markov, simulações estatísticas que acompanham um grupo de pessoas se movendo entre diferentes locais de cuidado (casa, hospital, instituição de longa permanência e hospice) ao longo do tempo, em ciclos de 24 horas. Foram avaliados dois grupos separadamente: pessoas vivendo na comunidade, candidatas a cuidados paliativos especializados domiciliares, e pessoas internadas em hospital, candidatas ao mesmo tipo de cuidado em ambiente hospitalar. Em ambos os casos, o desenho assumiu que o cuidado paliativo especializado não altera o tempo de sobrevida da pessoa: todas as diferenças encontradas refletem tempo vivido em locais diferentes, nunca uma vida mais longa ou mais curta.
O mecanismo por trás da economia
O achado mais direto do estudo está em uma tabela de custos aparentemente simples. Um dia em casa custa, em média, 15 libras esterlinas ao sistema de saúde inglês. Um dia de internação hospitalar custa 691 libras, quase 46 vezes mais. E a diferença não para no custo: a qualidade de vida média associada a um dia de hospital (0,44 em uma escala de 0 a 1) é a mais baixa entre os quatro locais avaliados, atrás de casa (0,53), hospice (0,49) e até de instituições de longa permanência (0,57).
Os próprios autores são explícitos sobre a origem desse resultado: a economia observada “foi realizada primariamente por redução de dias em hospital agudo”, e os ganhos de qualidade de vida vieram tanto do efeito direto do cuidado paliativo quanto do simples fato de que a qualidade de vida é mais alta em qualquer lugar fora do hospital. Por pessoa, o cuidado paliativo especializado domiciliar esteve associado a uma redução de custo de 7.908 libras e a um ganho de 0,035 QALY (ano de vida ajustado por qualidade). O cuidado hospitalar especializado esteve associado a uma redução de 6.480 libras e a um ganho de 0,033 QALY. Em ambos os casos, o resultado é o que a economia da saúde chama de “dominante”: mais barato e mais efetivo ao mesmo tempo, sem a necessidade de escolher entre uma coisa e outra.
A escala do resultado em um país inteiro
Combinando os resultados individuais com dados populacionais da Inglaterra em 2022, os pesquisadores estimaram que, em um único ano, os dois modelos de cuidado paliativo especializado juntos apoiaram mais de 20 mil pessoas a morrer fora do hospital, pouparam aproximadamente 1,5 milhão de diárias hospitalares e reduziram despesas do sistema de saúde em 817 milhões de libras. Separadamente, o cuidado domiciliar respondeu por 17.098 mortes hospitalares evitadas, cerca de 1 milhão de diárias poupadas e 533,1 milhões de libras economizados; o cuidado hospitalar especializado respondeu por 3.906 mortes hospitalares evitadas, 491.601 diárias poupadas e 283,9 milhões de libras economizados.
Uma análise secundária somou ao cálculo o custo do cuidado informal, o tempo que familiares dedicam a cuidar de quem está em casa, valorado pelo método de substituição de um cuidador remunerado. Mesmo com esse custo adicional, os dois modelos de cuidado continuaram sendo dominantes: mais baratos e mais efetivos que o cuidado usual. Isso importa porque responde a uma dúvida legítima: a economia observada não é apenas um deslocamento de custo do sistema público para a família, é uma economia real, mesmo quando o esforço familiar entra na conta.
A lacuna entre evidência e acesso
Se o cuidado paliativo especializado é, segundo os próprios pesquisadores, um cuidado de “excelente valor”, por que ele não chega a todos que poderiam se beneficiar? O estudo responde a essa pergunta com um número desconfortável: apenas 49,8% das pessoas na comunidade cuja morte era esperada, e que poderiam se beneficiar de cuidado domiciliar especializado, efetivamente o receberam. No hospital, o número foi de 45,5%. Ou seja, mesmo na Inglaterra, com um sistema de saúde universal consolidado, menos da metade de quem poderia se beneficiar desse cuidado o recebe hoje.
Os autores são diretos sobre a implicação prática: expandir o acesso ao cuidado paliativo especializado provavelmente geraria mais economia e melhores desfechos no curto prazo. Mas eles também alertam que ampliar o acesso não é suficiente sozinho. Diante de desigualdades já bem documentadas em quem recebe (e quem não recebe) esse tipo de cuidado, fechar a lacuna exige novas formas de identificar, engajar e atender grupos historicamente sub-representados nos serviços de cuidados paliativos, não apenas mais vagas no sistema já existente.
O que a ciência já reconhece como limitação
Por rigor científico, vale destacar o que os próprios autores apontam como fronteiras do que este estudo pode afirmar. Primeiro, é um modelo construído com dados agregados de nível populacional, não com dados individuais, o que limita a capacidade de capturar como diagnóstico, fase da doença, condições domiciliares e outros fatores específicos de cada pessoa influenciam o resultado. Segundo, o modelo assume que a evidência das revisões Cochrane sobre efeitos no local de óbito se aplica igualmente à população estudada, uma extrapolação razoável, mas não comprovável diretamente. Terceiro, e talvez mais importante para quem planeja serviços de saúde, o modelo não conseguiu capturar com precisão como o momento de início do cuidado paliativo (mais cedo ou mais tarde na trajetória da doença) afeta a intensidade do benefício, embora os próprios pesquisadores reconheçam que essa relação é central para a efetividade clínica e para o custo-benefício real observado na prática.
Os autores concluem, com honestidade pouco comum em estudos economicamente favoráveis a uma intervenção, que este trabalho “deveria ser o início, e não o fim” de modelos de decisão nesta área. É uma postura que vale destacar: a força do achado não depende de esconder suas próprias limitações.
O que o CUIDAR+ vê
Para o CUIDAR+, este estudo inglês oferece uma lente útil para pensar o SUS, guardadas as diferenças estruturais entre os dois sistemas. A tese central, de que o hospital concentra o maior custo e a menor qualidade de vida entre os locais possíveis de cuidado, não é uma peculiaridade britânica: é consistente com o que a literatura de cuidados paliativos já descreve em diversos contextos, incluindo o brasileiro. Sob o princípio da Clínica Ampliada, o achado se traduz assim: quando o sistema de saúde não organiza, com antecedência, um caminho estruturado entre o hospital e outros locais de cuidado (o domicílio, a atenção básica, um serviço de cuidados paliativos), a internação prolongada deixa de ser uma escolha do paciente e passa a ser, na prática, a ausência de alternativa.
Sob o princípio da Centralidade no Paciente, o dado sobre qualidade de vida por local (0,44 no hospital contra 0,53 em casa) merece atenção redobrada: ele sugere que o ambiente hospitalar, por sua própria natureza, otimizado para intervenção aguda e não para conforto ou dignidade em fase avançada de doença, impõe um custo à experiência da pessoa que vai além do custo financeiro. Não se trata de afirmar que o hospital é dispensável, ele continua sendo essencial para intervenções agudas, mas de reconhecer que, para quem tem uma doença que ameaça a vida e já não se beneficia de intervenção curativa, permanecer internado por falta de alternativa organizada raramente é a melhor opção clínica ou humana disponível.
Para o Brasil, onde o acesso a cuidados paliativos especializados ainda é significativamente mais restrito do que na Inglaterra, o achado sobre a lacuna de acesso (menos da metade de quem poderia se beneficiar efetivamente recebe o cuidado, mesmo em um sistema de saúde universal consolidado) é um alerta duplo: se essa desigualdade persiste mesmo onde a evidência já influencia a alocação de recursos há mais tempo, o desafio de organizar esse caminho no SUS, com sua própria escala de dimensão continental e desigualdade regional, é proporcionalmente maior, e a urgência de começar, também.
Cuidar melhor, neste estudo, não pediu escolher entre economizar e cuidar bem. Pediu organizar, com antecedência, o caminho entre o hospital e os lugares onde o cuidado de quem enfrenta uma doença que ameaça a vida pode, de fato, acontecer.
Baseado em: May P, Nikram E, Johansson T, Clarke G, Mitchell S, Higginson IJ, Sleeman KE, Murtagh FEM. Specialist palliative care improves patient experience, reduces bed days and saves money: An economic modelling study of home- and hospital-based care. Palliative Medicine. 2026;40(7):908-917. DOI: 10.1177/02692163261423755. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, Medicina Interna, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica.