Reabilitação Estruturada no Câncer Avançado: o Que Muda na Autonomia

Reabilitação estruturada em PCUs japonesas manteve AVDs de pessoas com câncer avançado (−1,31 vs −15,51 pts no mBI). O declínio que parecia inevitável era estrutural.

Quando uma pessoa com câncer avançado é internada em uma Unidade de Cuidados Paliativos, o que acontece com sua capacidade de se alimentar, de se higienizar, de se mover? A resposta que muitos clínicos dariam, de forma honesta, é: ela piora. E está correta — mas apenas em parte. Um ensaio clínico randomizado multicêntrico publicado em 2026 na revista Cancer demonstrou que a velocidade e a magnitude desse declínio dependem, de forma significativa, da estrutura do cuidado oferecido. O que parecia inevitável era, em parte, estrutural.

O que é reabilitação paliativa — e por que ela é diferente

Reabilitação em cuidados paliativos não é, e não pode ser, a mesma reabilitação pensada para a recuperação funcional pós-cirúrgica ou pós-AVC. O objetivo não é restaurar uma capacidade perdida nem preparar o paciente para retornar ao trabalho. É outro: identificar, junto com a pessoa, o que ainda importa para ela em termos de autonomia cotidiana — e estruturar o cuidado para preservar isso pelo maior tempo possível, mesmo diante de uma doença que avança.

Essa distinção é importante porque define a linguagem do cuidado. A pergunta não é “o que podemos recuperar?” mas “o que esta pessoa ainda quer poder fazer?” — e a resposta muda completamente o que o terapeuta faz em cada sessão. Banhar-se sozinho. Sentar na poltrona. Segurar uma colher. Essas capacidades parecem pequenas fora do contexto, mas são, para muitas pessoas com doença avançada, a diferença entre sentir-se sujeito ou objeto do próprio cuidado.

O que o ensaio clínico mediu e encontrou

O estudo de Nishiyama e colaboradores randomizou 130 pessoas com câncer em fase terminal (ECOG PS 2–3, sem tratamento antineoplásico ativo, expectativa de vida estimada em semanas) internadas em 19 Unidades de Cuidados Paliativos hospitalares no Japão. Um grupo recebeu um programa de reabilitação estruturado — aproximadamente 40 minutos por dia, cinco dias por semana, com metas colaborativas individualizadas definidas com o terapeuta. O grupo controle recebeu a reabilitação usual oferecida pelas unidades, sem protocolo estruturado e com cerca de metade da duração diária.

O desfecho primário foi a variação no Índice de Barthel Modificado (mBI), uma escala de 0 a 100 que mede independência em dez atividades cotidianas. Ao final de 22 dias, o grupo com reabilitação estruturada havia perdido em média 1,31 ponto. O grupo com reabilitação usual havia perdido 15,51 pontos. A diferença entre grupos foi de 14,21 pontos — estatisticamente significativa (p = 0,026) e acima da Diferença Mínima Clinicamente Importante de 9,25 pontos para esse instrumento. Nenhum evento adverso relacionado à reabilitação foi registrado em nenhum dos grupos.

A diferença entre −1,31 e −15,51 pontos na vida cotidiana

Para quem não trabalha com escalas funcionais, é importante traduzir esses números. Uma queda de 15,51 pontos no mBI, a partir de um valor médio basal de 69 pontos, representa a passagem de um nível de dependência moderada — no qual a pessoa ainda consegue realizar alguns cuidados pessoais com assistência parcial — para um nível de dependência grave, no qual necessita de ajuda substancial para a maioria das atividades cotidianas. Em três semanas.

O que o grupo com reabilitação estruturada experimentou foi algo qualitativamente diferente: uma perda de apenas 1,31 ponto, que não representa mudança clinicamente perceptível na vida diária. O funcionamento físico auto-relatado pelos próprios pacientes (medido pelo EORTC QLQ-C15-PAL) também foi significativamente melhor nos dias 8 e 15 no grupo intervenção — sinalizando que a diferença não era apenas observada pela escala, mas sentida pela pessoa.

O que a estrutura do programa explica

Um aspecto metodológico crucial deste estudo merece atenção: o grupo controle não foi privado de reabilitação. Recebeu a reabilitação usual das unidades participantes — que, segundo os autores, incluía sessões diárias de cerca de 20 minutos. A diferença entre os grupos não foi, portanto, reabilitação versus nenhuma reabilitação, mas reabilitação estruturada versus reabilitação usual.

O que tornou a intervenção eficaz? Os autores apontam três componentes: a definição colaborativa de metas com o paciente, a abordagem centrada na pessoa e a facilitação do engajamento e da autonomia do paciente ao longo das sessões. Em outras palavras, a estrutura não era apenas sobre mais tempo de terapia — era sobre um modo diferente de estar com o paciente, que partia de suas prioridades e se adaptava ao declínio progressivo em vez de resistir a ele. Esse é um achado com implicações diretas para a formação de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais que atuam em cuidados paliativos.

O que o CUIDAR+ vê neste estudo

Para o CUIDAR+, este estudo é a evidência de um princípio que orienta nossa abordagem há muito tempo: a Clínica Ampliada aplicada ao fim da vida. Reabilitação paliativa não é sobre “fazer o máximo possível” — é sobre perguntar, com honestidade e com presença, o que esta pessoa específica ainda quer poder fazer, e construir o cuidado a partir dessa resposta.

A diferença entre −1,31 e −15,51 pontos não está na tecnologia disponível, nem nos recursos da unidade, nem no prognóstico do paciente. Está na estrutura da relação terapêutica e na qualidade da atenção oferecida. Isso tem um nome na literatura de cuidados paliativos: presença qualificada. E é algo que pode ser ensinado, treinado e incorporado à rotina das equipes — independentemente do sistema de saúde em que se trabalha.

É importante também nomear o que o estudo não mostrou: não houve diferença significativa em bem-estar emocional, qualidade de vida global, fadiga, dor ou dispneia entre os grupos. A reabilitação estruturada moderou o declínio funcional — não resolveu todos os aspectos do sofrimento de pessoas com câncer avançado. Essa honestidade interpretativa é parte do que define a Honestidade Científica que o CUIDAR+ pratica.

Reabilitação paliativa no Brasil — onde estamos e para onde ir

No contexto brasileiro, a reabilitação em cuidados paliativos ainda é uma área em desenvolvimento. A maioria das Unidades de Cuidados Paliativos no SUS opera com quadros de fisioterapia e terapia ocupacional subdimensionados para o volume de pacientes e para a complexidade das necessidades funcionais que eles apresentam. Quando a reabilitação existe, raramente é protocolizada e raramente parte de metas definidas com o paciente.

O estudo japonês foi conduzido em um sistema de saúde com características muito distintas do brasileiro — PCUs hospitalares com internações médias de aproximadamente um mês, equipes de terapeutas com formação especializada, e cultura institucional de cuidados paliativos já consolidada. A generalização direta de seus achados para o SUS exige cautela, como os próprios autores reconhecem. Mas o princípio subjacente — que a estrutura do cuidado importa tanto quanto o diagnóstico — não tem fronteiras. Cada unidade que oferece cuidados paliativos no Brasil pode se perguntar: qual é a estrutura da reabilitação que oferecemos? O que as pessoas que cuidamos ainda querem poder fazer — e estamos perguntando?

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro — Medicina Interna, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica.

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