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Quando uma fita métrica envolve a parte mais larga da panturrilha de uma pessoa com câncer avançado, o número que aparece parece dizer algo importante sobre o que vem pela frente. Um estudo brasileiro publicado em 2026 na Clinical Nutrition ESPEN testou exatamente essa ideia: acompanhou 370 pessoas atendidas no ambulatório de cuidados paliativos do Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, e verificou como a medida da panturrilha, sozinha ou combinada com perda de peso, exames de sangue e sintomas, se relacionava com a mortalidade em 90 dias. O resultado tem duas leituras que precisam ser feitas juntas. Como sinal de risco, a panturrilha baixa esteve associada a maior mortalidade. Como ferramenta para apontar quem vai morrer e quem não vai, ela separou pouco. Este texto explica as duas, sem esconder nenhuma.
Quem foram as 370 pessoas e como a panturrilha foi medida
O estudo é uma coorte prospectiva observacional, de centro único: as pessoas foram avaliadas na primeira consulta ambulatorial da Unidade de Cuidados Paliativos do INCA, entre junho de 2021 e fevereiro de 2025, e acompanhadas por até 90 dias. Das 450 pessoas registradas, 80 ficaram fora da análise por edema na panturrilha (o líquido infla a medida) ou por falta de dados, e restaram 370. A mediana de idade foi de 65 anos, os tumores mais frequentes eram de cabeça e pescoço (33,8%), do trato digestivo (19,2%) e ginecológicos (14,1%), e 80,5% tinham doença metastática, ou seja, câncer que se espalhou para outros órgãos. Em 90 dias, 205 pessoas morreram (55,4%) e 165 (44,6%) não tinham óbito registrado no período.
Um detalhe muda a leitura de tudo. Eram pessoas ambulatoriais, com capacidade funcional mediana de 50 na escala de Karnofsky (KPS), que vai de 0 a 100. O critério de inclusão exigia KPS de 40 ou mais, escolhido pelos autores justamente para deixar de fora quem estava em fim de vida. Segundo o artigo, a primeira consulta marcou o início dos cuidados paliativos exclusivos. Para o CUIDAR+, cuidado paliativo não é sinônimo de fim de vida, e esta é uma visão nossa, não uma conclusão do estudo. Sobre paliativos que começam cedo, veja também cuidados paliativos precoces em doenças não oncológicas.
Como a medida foi feita
A pessoa fica sentada, com quadril e joelho a 90 graus e os pés apoiados no chão, e uma fita métrica não elástica mede a maior circunferência da panturrilha. Em quem tem sobrepeso ou obesidade, o estudo desconta 3, 7 ou 12 centímetros, conforme o índice de massa corporal (IMC), para que a gordura não esconda a perda de músculo. Foi considerada baixa a panturrilha de até 34 cm em homens e de até 33 cm em mulheres, já com o desconto. Pelos critérios do estudo, isso valeu para 288 das 370 pessoas, ou 77,8%: a panturrilha baixa era a regra na amostra, não a exceção. A fita mede, de forma indireta, a reserva de músculo, e o estudo não a comparou com tomografia nem com exames de composição corporal.
A circunferência da panturrilha foi combinada, uma de cada vez, com oito outros parâmetros: ingestão alimentar baixa, perda de apetite, cansaço, força de preensão da mão baixa, perda de peso de 10% ou mais em seis meses, albumina baixa (abaixo de 3,5 g/dL), proteína C reativa (PCR) elevada (10 mg/L ou mais) e razão neutrófilo-linfócito (RNL) elevada (5,7 ou mais). Albumina, PCR e RNL vêm de exames de sangue e indicam inflamação e estado nutricional. Para cada combinação, as pessoas foram divididas em três grupos: nenhum parâmetro alterado, um alterado ou os dois alterados.
A mesma fita, primeira leitura: um sinal de risco
Para medir a associação, o estudo usou a regressão de Cox, que calcula a razão de risco (HR, de hazard ratio). A HR compara a rapidez com que os óbitos acontecem ao longo do acompanhamento em um grupo e no grupo de referência; acima de 1, a taxa de óbito é maior. Não é a probabilidade de morrer em 90 dias, nem “tantos por cento mais chance de morrer”. O intervalo de confiança de 95% (IC95%) mostra a faixa em que o valor real provavelmente está; se não inclui 1,0, a associação é considerada estatisticamente significativa.
Pessoas com a panturrilha baixa tiveram taxa de óbito 1,58 vez maior que a de quem tinha a medida adequada (HR ajustada, IC95% de 1,11 a 2,26). O cálculo levou em conta idade, local do tumor, KPS e metástases no fígado e no pulmão. Os autores são explícitos: por ser um estudo observacional, a associação é prognóstica, e não causal. A panturrilha baixa seria um indicador de vulnerabilidade de fundo, e não um fator que determina a sobrevida. O estudo também não testou se ganhar músculo ou circunferência mudaria esse quadro.
Quando a panturrilha se soma a outros sinais
Os valores maiores apareceram nas combinações. Com os dois fatores alterados, a HR ajustada foi de 2,83 para panturrilha baixa mais perda de peso de 10% ou mais, de 3,10 para panturrilha baixa mais albumina baixa e de 3,20 para panturrilha baixa mais PCR elevada: as três maiores do estudo. Nas demais combinações com os dois fatores alterados, as HR ficaram entre 1,71 (força de preensão baixa) e 2,33 (cansaço), incluindo 2,19 com RNL elevada. Mas “as maiores” exige uma ressalva: os intervalos de confiança se sobrepõem amplamente (de 1,71 a 4,68 para perda de peso, de 1,93 a 4,99 para albumina e de 2,00 a 5,13 para PCR) e o artigo não testou diferença entre as combinações. Não dá para afirmar que uma delas é melhor que outra.
Há ainda um padrão que merece atenção. Na regressão de Cox ajustada, o grupo com apenas um fator alterado não se separou estatisticamente do grupo de referência na maior parte das combinações. Isso ocorreu com ingestão alimentar, perda de apetite, força de preensão, albumina, PCR e RNL; só foi significativo com cansaço e perda de peso. Nas curvas de sobrevida (Kaplan-Meier), porém, esse grupo também diferiu do de referência com albumina, PCR e RNL. Ou seja, no modelo ajustado, o risco associado só ficou nítido, na maioria dos casos, quando a panturrilha baixa e o outro fator apareceram juntos. O grupo de “um alterado” mistura quem tem só a panturrilha baixa com quem tem só o outro fator, e o artigo não separa os dois.
Para explicar o conjunto, os autores propõem, como hipótese, que a panturrilha reflete a reserva estrutural de músculo, enquanto albumina baixa, PCR alta e RNL elevada captam a inflamação sistêmica e a deterioração clínica. É uma interpretação plausível, mas este estudo não a demonstrou.
A mesma fita, segunda leitura: quanto ela ajuda a prever
Saber que um sinal se associa a maior mortalidade em grupos é diferente de saber se ele consegue apontar, entre duas pessoas, qual tem maior probabilidade de morrer no período. O estudo avaliou isso com a curva ROC e a sua área, a AUC. A ideia é a seguinte: sorteie uma pessoa que morreu e outra sem óbito registrado no período; a AUC é a chance de o teste atribuir o risco mais alto à que morreu. Uma AUC de 0,5 equivale ao acaso, e 1,0 seria um teste perfeito.
A panturrilha baixa isolada teve AUC de 0,541 (IC95% de 0,501 a 0,600; p = 0,047). Está um pouco acima do acaso do ponto de vista estatístico, mas muito perto dele: na linguagem do sorteio, a ordem seria acertada em pouco mais de 54 de cada 100 pares, contando os empates como meio acerto, contra 50 que o acaso daria. As três combinações destacadas pelos autores ficaram entre 0,612 e 0,631. Pelo critério de interpretação adotado pelos próprios autores, de 0,6 a 0,7 é discriminação pobre e de 0,7 a 0,8 é aceitável. Nenhum modelo chegou a 0,7.
A equipe de pesquisa reconhece o limite. Em tradução livre, os valores de AUC “permaneceram modestos”, e as combinações talvez sejam mais úteis para estratificar risco e caracterizar a pessoa do que como ferramentas isoladas e precisas de previsão.
O que o título promete e o que os números sustentam
O título do artigo afirma que integrar a panturrilha com parâmetros nutricionais e inflamatórios “melhora a predição” da sobrevida de curto prazo. Essa frase se apoia em um aumento descritivo da AUC, de 0,541 para até 0,631. O estudo não fez teste formal para comparar as AUC entre si, e os intervalos de confiança se sobrepõem em parte: o da panturrilha isolada vai de 0,501 a 0,600, e o da combinação com PCR, de 0,575 a 0,687. Esse é um limite que observamos na leitura do artigo, não uma limitação declarada pelos autores: “melhora” descreve uma diferença de valores nesta amostra, e não uma superioridade comprovada.
Ao mesmo tempo, a equipe de pesquisa não trata a medida como inútil. Na seção 4.4, sobre implicações clínicas, recomenda incorporar a circunferência da panturrilha à avaliação de rotina, sobretudo combinada com perda de peso, albumina e PCR, e lembra que o acesso rotineiro a exames de imagem, como a tomografia, não faz parte da realidade dos cuidados paliativos. A leitura honesta junta as duas coisas: o uso na rotina é uma recomendação dos autores, feita com a ressalva de que a discriminação é modesta e de que ainda falta validação em outras populações.
O que o estudo não mostrou
Vale separar o que os autores declararam como limitação do que uma leitura crítica enxerga por conta própria.
Limitações declaradas pelos autores
A equipe de pesquisa reconhece que o estudo foi feito em um único centro, um hospital oncológico terciário, o que limita a generalização para outros cenários. Pode haver confusão residual, porque características moleculares do tumor, comorbidades além das avaliadas, intervenções nutricionais anteriores e histórico de tratamento não foram capturados. A ingestão alimentar foi medida por autorrelato (questionário PG-SGA), com risco de classificação incorreta. Não houve avaliação da massa muscular por imagem. As associações são prognósticas, e não causais. E são necessárias validações em populações maiores e mais diversas.
Limites observados pela curadoria do CUIDAR+
Há pontos que o artigo não lista como limitação. Ele não informa a AUC nem a HR de PCR, albumina ou perda de peso sozinhas, então não dá para saber quanto da capacidade das combinações vem da panturrilha e quanto vem do marcador inflamatório. Não informa de que lado do corpo a medida foi feita nem quantas vezes, e a perda de peso parte do peso habitual lembrado pela própria pessoa. A panturrilha baixa era tão frequente (77,8%) que o corte classifica a maioria como alterada. Os 80 excluídos (17,8%), que segundo os autores não diferiram dos incluídos em idade, sexo, tumor, metástases e KPS, incluem pessoas com edema, e o corte de KPS deixa de fora quem estava em fase mais avançada: os resultados valem para pessoas ambulatoriais e relativamente funcionais, e não para quem está muito frágil ou internado.
Foram feitas oito combinações na regressão de Cox e nove modelos de curva ROC, sem menção a correção para múltiplos testes, e o grupo de “um fator alterado” é heterogêneo. Os descontos pelo IMC e os pontos de corte vêm de dados populacionais dos Estados Unidos (NHANES), e o estudo não testou se eles se aplicam a pessoas brasileiras com câncer avançado. Por fim, o estudo não testou nenhuma conduta. As frases sobre evitar intervenções sem benefício e apoiar decisões nutricionais proporcionais são motivação e perspectiva, não resultado. Não se sabe se medir a panturrilha muda desfechos, para melhor ou para pior.
O que o CUIDAR+ vê
Centralidade no Paciente: a fita é barata e pode ser usada à beira do leito. O seu melhor uso é olhar a pessoa com mais atenção: como estão a reserva de músculo, o peso, a inflamação, o cansaço e o apetite. Uma medida assim serve de porta de entrada para uma conversa, e não de rótulo. A posição do CUIDAR+, que não vem do artigo, é que esse número não deve ser usado para reduzir ou negar suporte nutricional ou qualquer outro cuidado. Com discriminação modesta e nenhuma conduta testada, esse uso não encontra respaldo no estudo.
Clínica Ampliada: o achado só ganha sentido na soma das dimensões, músculo, peso, inflamação e sintomas, e nenhum número isolado explica a pessoa. A decisão nutricional e o planejamento do cuidado se constroem com a pessoa e a família, são individuais e podem ser revistos. Uma medida como essa pode ajudar a abrir uma conversa honesta sobre expectativas, valores e prioridades, sem substituir o julgamento clínico. Sobre o peso de uma estimativa de risco para quem a recebe, veja também a ética da predição em saúde e como comunicar a incerteza do prognóstico.
Honestidade Científica: a associação com risco (HR de 1,58) convive com uma discriminação de 0,541. São 370 pessoas ambulatoriais de um único centro, sem validação externa. Mostrar as duas leituras, e não só a mais favorável ao título, faz parte do compromisso de contar a ciência como ela é.
Do INCA para o Brasil: a fita métrica e seus limites
O estudo é brasileiro de ponta a ponta: feito no INCA, no Rio de Janeiro, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, com consentimento escrito de todas as pessoas, e publicado em acesso aberto, com a taxa de publicação paga pela CAPES, segundo o artigo. O dado mais relevante para o Brasil é prático: o artigo afirma que a falta de acesso rotineiro a exames de imagem reflete a prática real dos cuidados paliativos, o que dá relevância a uma medida de baixo custo como a fita métrica.
Há limites para transportar o achado. É um único centro terciário no Rio de Janeiro, que não representa todo o sistema de saúde nem a atenção primária ou o cuidado domiciliar. Os pontos de corte vêm de dados dos Estados Unidos. E o estudo não diz que o INCA tenha adotado a medida na rotina. O que o trabalho oferece ao Brasil é um ponto de partida: dados de uma coorte nacional sobre uma medida acessível, que pede validação em outros serviços antes de qualquer protocolo.
Uma fita métrica pode apontar onde olhar. Quem escuta, conversa e decide junto continua sendo a equipe, com a pessoa e a família. Medir a própria panturrilha não substitui a avaliação da equipe de saúde, e quem tem dúvidas sobre a sua situação deve conversar com quem cuida.
Baseado em: Cunha KS, Wiegert EVM, Calixto-Lima L. (2026). Integrating calf circumference with nutritional and inflammatory parameters improves short-term survival prediction in outpatients with advanced cancer. Clinical Nutrition ESPEN, 75:105053. DOI: 10.1016/j.clnesp.2026.105053. Acesso aberto (CC BY). Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, Medicina Paliativa, CRM/SP 92.540, RQE 54.561.