Mesmas Últimas Horas, Dois Jeitos de Contar o Luto

Estudo francês acompanhou 22 cônjuges enlutados por um ano: homens e mulheres contaram a mesma perda em registros diferentes, e a sedação seguiu nos relatos.

“Eu podia vê-lo sufocando”, contou uma viúva ao lembrar as horas finais do marido. “Eram 20h, e ela faleceu às 22h30”, contou um viúvo sobre a noite em que perdeu a esposa. As duas frases falam do mesmo momento, as horas finais, mas em línguas diferentes: uma fala do corpo e da cena; a outra, do relógio e dos fatos. Elas estão em um estudo qualitativo francês publicado em 2026 no Supportive Care in Cancer, que acompanhou durante um ano 22 pessoas que perderam o cônjuge para o câncer, em contexto de cuidados paliativos.

Como o estudo foi feito

O trabalho faz parte do projeto AfterSedatio, financiado pelo Instituto Nacional do Câncer da França. Entre 2022 e 2025, cônjuges de pessoas que morreram de câncer depois de iniciar cuidados paliativos foram recrutados em 9 hospitais franceses. Dos 50 recrutados, 22 tinham completado as três entrevistas no fechamento do material para análise: 12 homens e 10 mulheres, de 31 a 75 anos. Cada pessoa foi entrevistada aos 3, 6 e 12 meses após a morte, sempre online e pelas mesmas duas psicólogas clínicas especializadas em luto, num total de 66 entrevistas.

A análise combinou duas camadas. A primeira usou o ALCESTE, um programa de análise lexical que divide as entrevistas em pequenos trechos e agrupa esses trechos por semelhança de vocabulário, formando “classes” de assunto. A segunda foi uma análise temática feita por pesquisadoras sobre os trechos mais típicos de cada classe. Um cuidado importante de leitura: quando o artigo diz que uma classe reúne, por exemplo, metade do material, isso se refere à proporção de trechos de texto, não à proporção de pessoas. Por isso, nenhum número de classe pode ser lido como “tantos por cento das mulheres” ou “dos homens”. Os únicos números que falam de pessoas são os da descrição da amostra.

Outro detalhe muda a leitura do título. Nem todos os participantes viveram a sedação contínua e profunda no fim da vida: isso aconteceu em 9 dos 22 casos (4 entre os homens e 5 entre as mulheres). Em 6 casos houve sedação leve ou intermitente e em 7 não houve sedação. A sedação é, portanto, contexto e tema das conversas, e não uma experiência comum a todos os entrevistados.

O mesmo assunto, dois registros

Aos 3 meses: a última noite

Três meses depois da morte, homens e mulheres deram bastante espaço aos últimos dias e às circunstâncias da morte. O que variou, segundo os autores, foi o jeito de contar. As mulheres ouvidas tenderam a narrar esses momentos com detalhes sensoriais e corporais: o declínio físico, os cuidados agudos, a decisão sobre a sedação, tudo situado dentro da história do casal e da família. “Entre o barulho da máquina e ele… Eu podia vê-lo sufocando”, disse uma viúva. Os homens tenderam a contar o mesmo período com mais distância emocional, organizando o relato em torno do manejo clínico, da logística e de perdas familiares anteriores. Os autores resumem assim: o que distinguiu os grupos foi “não o assunto, mas o registro”.

Os autores fazem questão de uma leitura que evita o clichê. Os relatos das mulheres não expressam apenas emoção: eles também carregam o peso cognitivo das decisões, a exposição ao sofrimento de alguém amado e a responsabilidade de manter a família funcionando. E os relatos dos homens também incluíram, segundo o artigo, momentos de ruptura emocional e insegurança existencial.

Aos 12 meses: o futuro

Um ano depois, segundo os autores, as mulheres tenderam a olhar o futuro com cautela e a manter vínculos emocionais fortes com quem partiu, enquanto os homens, com mais frequência, retomaram a vida social e projetos pessoais. Mas o próprio estudo traz relatos que fogem dessa tendência. Uma viúva disse, aos 12 meses: “Sinto-me pronta para recomeçar e conhecer alguém. Não achei que conseguiria.” Um viúvo, aos 6 meses: “Estou numa fase difícil, porque está demorando, e sinto falta dela.” Os resultados dos 6 meses, por sua vez, são os mais frágeis do artigo: as classes principais dessa fase ficaram pouco definidas, e os próprios autores afirmam que nenhuma comparação se apoia nelas.

Registros fluidos, não destinos

O trecho mais importante do artigo talvez seja o que desmonta a leitura apressada. Aos 12 meses, uma mulher contou a perda no registro dos fatos, centrado nos serviços do hospital e na coordenação do cuidado, o que no grupo era mais comum entre os homens. E um homem contou a perda pelo sofrimento, pelo acompanhamento e pelas circunstâncias da morte, registro mais comum entre as mulheres. É curioso notar que esse mesmo viúvo, aos 3 meses, havia descrito o período da doença de forma factual, dizendo que estava “perfeitamente a par de cada detalhe” das consultas. O registro de uma pessoa pode mudar ao longo do luto.

Por isso os autores escolhem as palavras com cuidado. Eles falam em “registros narrativos observados nesta amostra e neste contexto de entrevista”, e não em “caminhos do luto” de homens e mulheres. E afirmam que a diferença no modo de contar é compatível com diferenças no processo de luto, mas não é prova delas. Em outras palavras: o estudo mostra modos de contar, não modos de sentir.

Os próprios autores também listam explicações alternativas que podem ter contribuído para o contraste. As duas entrevistadoras eram mulheres, o que pode ter deixado as entrevistadas mais à vontade para relatos detalhados. As entrevistas com mulheres foram mais longas, e o programa de análise é sensível ao volume de texto, de modo que parte da diferença pode vir dessa assimetria e não do gênero em si. Os autores também reconhecem que tratar gênero de forma binária pode não captar a diversidade das experiências. E há limites que o artigo não discute, mas que a descrição da amostra permite ver: a escolaridade era alta, e não há informação sobre casais do mesmo sexo, etnia ou religião.

A conversa sobre a sedação continua depois da morte

Na França, a sedação contínua e profunda até a morte é regulada pela Lei Claeys-Leonetti, de 2016, que garante esse direito a pessoas que cumprem critérios específicos de fim de vida. Trata-se de uma forma de sedação paliativa: o uso de medicamentos para reduzir a consciência, na medida necessária, quando um sofrimento no fim da vida não cede com outros tratamentos. Sedação paliativa não é eutanásia: o objetivo é aliviar, e não antecipar a morte, que decorre da doença de base.

Na discussão, os autores observam que, quando a sedação foi bem explicada, os cônjuges tenderam a integrá-la como uma intervenção compassiva; quando a comunicação foi insuficiente, os relatos trouxeram perguntas sem resposta, culpa ou lembranças intrusivas. Um viúvo, um ano depois, descreveu assim a sua experiência: na visão dele, a atenção de quem cuidava, somada à sedação, evita o sofrimento, e para ele isso foi positivo.

É preciso ler esse achado com honestidade. Ele vem da discussão do artigo, sem contagem de quantos participantes viveram cada situação e sem uma classificação sistemática da qualidade da comunicação. O estudo também não comparou o luto de quem teve sedação contínua com o de quem não teve, e não mediu luto prolongado com nenhuma escala. O que ele oferece é uma observação clínica relevante: a conversa sobre a sedação no fim da vida não termina com a morte. Ela continua presente, bem ou mal resolvida, nos relatos do luto meses depois.

O luto também tem uma dimensão econômica

Um dado da descrição da amostra chama atenção. Neste grupo, 5 das 10 mulheres relataram queda de 50% ou mais na renda depois da morte do cônjuge; entre os homens, 2 de 12 relataram a mesma queda e 8 de 12 não relataram impacto financeiro. É informação dada pelos próprios participantes, e o artigo não detalha como foi medida. Os autores relacionam a diferença a desigualdades de gênero já descritas em estudos populacionais sobre viuvez. Para quem cuida, a lição é prática: o luto pode chegar junto com uma crise financeira, e isso também faz parte do que a pessoa enlutada precisa enfrentar.

O que o CUIDAR+ vê

Centralidade no Paciente: aqui, o centro é a pessoa enlutada. O apoio ao luto começa por escutar como cada pessoa conta a própria perda, e não por presumir pelo gênero. Quem fala em horários e providências pode estar em pedaços; quem descreve cada imagem e cada som das últimas horas pode estar pronto para recomeçar. Um apoio que espera lágrimas de quem fala em logística corre o risco de não reconhecer quem está sofrendo.

Clínica Ampliada: o luto é também familiar, com filhos, rotinas e rituais, e econômico, com a perda de renda. E a comunicação no fim da vida, especialmente sobre a sedação, faz parte do cuidado ao luto que vem depois. Explicar bem hoje é uma forma de cuidar de quem fica.

Honestidade Científica: são 22 pessoas na França, com gênero tratado como homem ou mulher e escolaridade alta. Os autores falam de tendências de grupo, fluidas e dependentes do contexto, e registram exemplos que as contrariam. O achado sobre a sedação é uma observação sem contagem. Nada disso autoriza frases como “homens sofrem menos” ou “mulheres sofrem mais”.

Da França ao Brasil: a sedação bem explicada e o luto bem escutado

O estudo não pode ser transposto diretamente para o Brasil, onde a organização dos serviços, a cultura do luto e o marco legal são outros. No Brasil, a eutanásia não é permitida, e o Código de Ética Médica veda ao médico abreviar a vida do paciente, orientando que, nos casos de “doença incurável e terminal”, sejam oferecidos todos os cuidados paliativos disponíveis. A sedação paliativa é uma prática reconhecida dentro desse cuidado. Justamente por existir confusão entre sedação e eutanásia no imaginário de algumas famílias, a clareza na conversa ganha ainda mais peso: a família precisa entender o que está sendo feito, por quê, e o que esperar.

Algumas implicações práticas partem das recomendações dos autores, que pedem comunicação clara e precoce sobre a sedação e apoio ao luto individualizado, e da leitura do CUIDAR+ para a realidade brasileira. Elas podem ser discutidas por qualquer equipe. Explicar a sedação à família com antecedência, em linguagem simples, deixando claro o objetivo de aliviar o sofrimento, e abrir espaço para perguntas antes e depois da morte. Oferecer um contato de seguimento após o óbito, para que dúvidas sobre as decisões do fim da vida não fiquem sem resposta. No apoio ao luto, perguntar como a pessoa está vivendo a perda e escutar o jeito de contar, sem presumir pelo gênero quem precisa de mais ajuda. E lembrar que o luto pode vir acompanhado de perda de renda e de sobrecarga com filhos, o que pede articulação com a rede de apoio social.

O maior mérito do estudo é mostrar que a mesma perda pode ser contada de muitas formas, e que nenhuma delas é o destino de um gênero. Escutar como cada pessoa conta a perda também é cuidar.

Baseado em: Chemrouk Y, Sani L, Ducos M, Gauthier P, Bacqué M-F. (2026). End-of-life sedation and gendered narrative registers: a longitudinal qualitative study of spouses bereaved by cancer. Supportive Care in Cancer, 34:980. DOI: 10.1007/s00520-026-11224-6. Acesso aberto (CC BY 4.0). Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).

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