Solidão no Fim de Vida: Por Que a Prevalência Varia Tanto

Uma revisão sistemática de 15 estudos mostra que a prevalência de solidão no fim da vida varia de 7% a 73%, conforme como os pacientes foram identificados.

Depende de como se pergunta. Essa é, em poucas palavras, a conclusão mais desconfortável de uma revisão sistemática publicada em 2026 na Palliative Medicine, que reuniu 15 estudos e 47.588 pacientes para tentar responder a uma pergunta aparentemente simples: qual é a prevalência de solidão entre adultos no fim da vida? Não existe uma resposta única. Quando os pesquisadores identificaram os participantes por diagnóstico ou por estarem recebendo cuidados paliativos, a solidão moderada ou pior apareceu em 20% a 73% das pessoas. Quando os mesmos pesquisadores identificaram participantes apenas retrospectivamente, olhando para trás a partir da data da morte, sem que a pessoa necessariamente soubesse que estava próxima do fim, essa faixa caiu para 7% a 12%. O carrossel desta semana apresentou esse contraste. Este artigo aprofunda o método por trás dele, os fatores que se associam à solidão, a lacuna que os próprios autores apontam como mais urgente, e o que esse achado internacional tem a dizer sobre o cuidado paliativo no Brasil.

O que a ciência já sabia sobre solidão no fim da vida, e por que medir sua prevalência é tão difícil

A solidão no fim da vida não é um tema novo para quem cuida de pacientes em estágio avançado de doença. Profissionais de cuidados paliativos frequentemente citam a solidão como uma preocupação recorrente entre seus pacientes, e a literatura já associava sentir-se solitário a pior qualidade de vida, sintomas mais intensos nas últimas semanas de vida e maior risco de morte por outras causas. O que faltava, até esta revisão, era uma síntese sistemática que reunisse o que a pesquisa internacional já havia medido sobre o tamanho desse problema. Publicada na Palliative Medicine, a revisão foi pré-registrada no PROSPERO (CRD42024581962) e conduzida segundo as diretrizes PRISMA 2020, com busca em seis bases de dados até 29 de abril de 2025: de 974 registros originais, restaram 668 únicos após remoção de duplicatas, dos quais 49 artigos foram lidos na íntegra, mais 13 identificados por busca de citações, até chegarem aos 15 estudos finalmente incluídos.

Por que os autores optaram por faixas, não por um número único

Aqui está o primeiro achado metodológico, que já é, em si, um resultado relevante: os autores consideraram fazer uma metanálise, calcular um número único e consolidado de prevalência, e decidiram que não deveriam. Da checklist de sete condições recomendadas para uma metanálise ser viável, apenas quatro estavam presentes nos 15 estudos identificados. A heterogeneidade era grande demais: medidas diferentes de solidão, desenhos de estudo diferentes, populações, faixas etárias, diagnósticos e definições de “fim de vida” diferentes entre si, além do fato de que menos da metade dos estudos foi avaliada como de baixo risco de viés pelo instrumento da Joanna Briggs Institute. Diante disso, a equipe optou por uma revisão sistemática sem metanálise (Synthesis without Meta-Analysis, SWiM), reportando os achados como faixas, não como médias. Os próprios autores escrevem que essa abordagem é preferível a produzir uma estimativa pontual a partir de estudos com poucas semelhanças entre si. Não é uma limitação escondida, é uma escolha metodológica declarada, e também a primeira lição prática deste artigo: quando alguém apresentar um único número de prevalência de solidão no fim da vida, vale perguntar de onde ele veio.

Os achados de prevalência, e o que muda quando a pessoa sabe que o fim está próximo

A revisão dividiu os 15 estudos, de forma pós-hoc, em dois grupos conforme como os participantes foram identificados como estando no fim da vida. O primeiro grupo usou amostragem por diagnóstico ou recebimento de cuidado: critérios como prognóstico inferior a três ou seis meses, recebimento de serviços de hospice ou cuidados paliativos, ou diagnóstico terminal. Nesse grupo, entre pacientes que relataram sua própria solidão por meio de escalas validadas como a UCLA de três itens, a solidão moderada ou pior variou de 26% a 73% (26% a 58% entre os estudos de menor risco de viés), e a solidão alta variou de 8% a 33%. Quando a medida foi uma pergunta direta em vez de uma escala validada, a faixa de solidão moderada ou pior foi de 20% a 50%. O único estudo que comparou diretamente pacientes de fim de vida com outros grupos, conduzido em Israel com 37 pacientes de hospice oncológico, encontrou 46% relatando solidão atual, contra 22% na população geral e 33% entre cuidadores.

O segundo grupo, de amostragem retrospectiva, identificou participantes apenas pelo tempo entre a medição e a morte, sem outro critério diagnóstico. Nesse grupo, a prevalência despenca: solidão moderada ou pior entre 7% e 12% (7,04% e 12,2% em dois estudos distintos), solidão alta de 18,6% (contra 11% em pessoas que viveram mais de quatro anos após a mesma medição, no estudo de Kotwal e colaboradores, uma diferença descrita pelos autores originais como estatisticamente significativa). Os autores desta revisão levantam uma hipótese explicativa importante, sem transformá-la em certeza: nos estudos retrospectivos, nem todos os participantes necessariamente sabiam, no momento em que a solidão foi medida, que estavam se aproximando do fim da vida. Isso sugere que a consciência do prognóstico, saber ou não saber que o tempo está se esgotando, pode estar entrelaçada com a intensidade da solidão relatada. É a leitura mais cuidadosa possível de um achado real: não prova causalidade, mas expõe um padrão consistente demais para ser ignorado.

Diagnóstico faz diferença? Duas pistas que se contradizem

Apenas dois estudos compararam diagnósticos diferentes diretamente, ambos usando dados basais do mesmo ensaio clínico, a coorte EMPallA. Neles, pacientes com doenças não oncológicas (insuficiência cardíaca, doença renal em estágio terminal, DPOC) relataram mais solidão do que pacientes com câncer, e pacientes com duas ou mais condições avançadas relataram mais solidão alta (33%) do que pacientes com uma única condição (21%). Mas os próprios autores fazem questão de registrar a ressalva: esse mesmo padrão não se repetiu quando comparados estudos isolados de doenças únicas, como dois pequenos estudos de câncer que encontraram solidão moderada ou pior entre 36% e 73%, faixa tão alta quanto, ou mais alta do que, a de doenças não oncológicas em outros estudos. A explicação mais provável, segundo os autores, não é o diagnóstico em si, mas diferenças de país, contexto assistencial e desenho de estudo entre os grupos comparados. É um lembrete de que apenas dois estudos comparativos não sustentam uma conclusão firme sobre qual doença traz mais solidão.

O que se associa à solidão, a lacuna sobre onde se vive, e a camada que nenhuma escala mede

Os fatores que se repetem entre os estudos, e os que não

Sete dos 15 estudos revisados fizeram análise multivariável de correlatos de solidão, quatro deles avaliados como de baixo risco de viés. O padrão mais consistente veio da saúde mental: todos os estudos que incluíram medidas de pior saúde mental (depressão, ansiedade, apatia) encontraram associação com solidão. Artrite e dor também apareceram associadas, ainda que poucos fatores de saúde física tenham sido incluídos em mais de um estudo para comparação, e o estágio da doença, medido de várias formas, predominantemente não se mostrou associado. Já fatores sociodemográficos como idade, gênero e etnia não mostraram um padrão consistente entre todos os estudos, embora mulheres tenham sido mais frequentemente solitárias nos estudos avaliados como de menor risco de viés. Não ter parceiro e viver um declínio social também apareceram associados à solidão, mas com consistência limitada entre os estudos.

Um dado de ausência chama tanta atenção quanto os dados de presença: nenhum dos sete estudos que analisaram correlatos incluiu arranjos de moradia, morar sozinho ou viver em instituição de longa permanência, como variável testada. É uma lacuna estrutural, não um detalhe: os próprios autores da revisão apontam, nas limitações, que nenhum dos 15 estudos incluídos foi conduzido dentro de instituições de longa permanência (care homes), embora quase um quarto das mortes na Inglaterra já ocorra nesses locais hoje, com projeções de que essas instituições se tornem o cenário mais comum de morte na Inglaterra e no País de Gales até 2040. Uma revisão anterior, citada pelos próprios autores, estimou a prevalência de solidão moderada entre residentes de instituições de longa permanência em até 61%, um número que não pôde ser comparado diretamente aos achados desta revisão porque essa população, simplesmente, não está representada em nenhum dos 15 estudos analisados.

A solidão que os instrumentos não perguntam

Há ainda uma terceira lacuna, mais conceitual do que estrutural. Na discussão do artigo, os autores nomeiam a solidão existencial, uma camada mais profunda ligada a sentimentos de separação, perda de conexões, arrependimentos ou vergonha diante da proximidade da morte, e escrevem que essas sensações mais profundas não são capturadas pelas escalas curtas de solidão amplamente usadas nos 15 estudos revisados, ainda que escalas mais longas para medi-las já existam. Nenhum dos estudos incluídos usou uma medida que incorporasse aspectos de solidão existencial. É uma diferença importante para quem atua na prática clínica: perguntar se a pessoa sente falta de companhia não é o mesmo que perguntar se ela sente que está se despedindo sozinha, e a segunda pergunta segue, segundo esta revisão, praticamente sem instrumento de medida padronizado.

O que o CUIDAR+ vê

Sob a Centralidade no Paciente, o achado mais direto desta revisão é que a intensidade de solidão relatada por uma pessoa pode depender de como e quando a pergunta é feita, e mais ainda, de que ela seja feita com tempo e cuidado, não apenas marcada como uma caixa em um formulário padronizado durante uma consulta apressada. Sob a Clínica Ampliada, a ausência de qualquer um dos 15 estudos revisados em instituições de longa permanência, justamente onde mais pessoas morrerão nas próximas décadas segundo as próprias projeções citadas no artigo, revela algo sobre onde a atenção da pesquisa científica, e por extensão do cuidado, tem historicamente se concentrado. Sob a Honestidade Científica, vale repetir o que os próprios autores fizeram questão de evitar: um único número de prevalência que escondesse a variação real entre os estudos. Mostrar a faixa, com todo o desconforto de não ter uma resposta simples, é mais honesto do que fingir uma precisão que os dados não sustentam.

Da revisão internacional à prática no Brasil e no SUS

Não existe, até o momento, uma revisão sistemática equivalente que sintetize a prevalência de solidão em cuidados paliativos no Brasil, o que por si só já ecoa a lacuna que os autores desta revisão descrevem para as instituições de longa permanência inglesas: também aqui, a ausência de dado é, de certa forma, um dado sobre onde a pesquisa brasileira em cuidados paliativos ainda precisa investir. O que existe é conhecimento mais geral sobre o envelhecimento populacional acelerado do país e sobre o papel estrutural que a Atenção Primária à Saúde, por meio da Estratégia Saúde da Família e dos Agentes Comunitários de Saúde, já ocupa no acompanhamento domiciliar de pessoas idosas e de suas famílias, incluindo aquelas em cuidados paliativos oferecidos pelo Programa Melhor em Casa do SUS.

A revisão original cita, entre as implicações práticas de seus achados, o conceito de comunidades compassivas (compassionate communities): a mobilização de recursos comunitários, vizinhos, voluntários, redes de apoio local, para sustentar pessoas solitárias no fim da vida, além do que qualquer equipe de saúde consegue sozinha. É um modelo que dialoga diretamente com uma estrutura que o Brasil já tem, mesmo sem tê-la desenhado originalmente para esse fim: o Agente Comunitário de Saúde, presente no território, com vínculo construído ao longo dos anos com famílias inteiras, é por natureza uma ponte entre o serviço de saúde formal e a rede social informal ao redor de quem está doente. A aplicabilidade dessa leitura, porém, não é uniforme entre diferentes contextos socioeconômicos brasileiros: em áreas urbanas com cobertura de Saúde da Família consolidada, essa ponte já existe, ainda que sobrecarregada; em regiões com cobertura mais frágil ou descontínua, especialmente fora dos grandes centros, a mesma lacuna que a revisão aponta para as instituições de longa permanência inglesas tende a se repetir, sem substituto local visível. Transportar os números internacionais de prevalência para a realidade brasileira, ponto a ponto, seria extrapolar além do que os dados permitem. Transportar a pergunta que sustenta esses números, essa sim, já cabe começar a fazer, em qualquer unidade básica de saúde do país.

Baseado em: Maun E, Gardiner C, McConnell T, Seddon K, Woodhead A, Hudson B. Loneliness among adults at the end of life: A systematic review of prevalence and correlates. Palliative Medicine. 2026;00(0):1-16. DOI: 10.1177/02692163261428936. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).

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