O Abismo Entre Quem Precisa e Quem Recebe Cuidados Paliativos

17 líderes globais de cuidados paliativos escrevem na The Lancet: 73 milhões de pessoas sofrem por ano, mas só 12% recebem o cuidado que precisam de fato.

Em abril de 2025, dezessete pessoas assinaram juntas um texto na revista The Lancet. Não eram pesquisadores relatando um novo experimento: eram líderes de organizações globais e regionais de cuidados paliativos, pessoas com experiência vivida de doença grave, integrantes de comissões internacionais sobre o tema. O texto, do tipo “Comment” (uma categoria editorial de posicionamento, distinta de um artigo de pesquisa original), reúne estatísticas já publicadas por outros estudos para sustentar um argumento direto: mais de uma década depois de o mundo declarar, por unanimidade, que cuidados paliativos são uma responsabilidade ética dos sistemas de saúde, o acesso real ainda está muito distante da promessa. O carrossel desta semana apresentou o contraste central desse argumento. Este artigo aprofunda a origem dos números, o que eles revelam sobre a distribuição global do cuidado, e o que essa leitura tem a dizer sobre o sistema de saúde brasileiro.

Um posicionamento coletivo, não um estudo de dados originais

Antes de qualquer número, vale uma pausa metodológica que o próprio texto não esconde: “Relieve the suffering: palliative care for the next decade” não é um survey, um ensaio clínico ou uma revisão sistemática conduzida pelos autores. É um Comment, formato editorial que a The Lancet reserva para posicionamentos fundamentados de especialistas, e que não envolve coleta de dados original nem seção formal de limitações metodológicas. As estatísticas centrais do texto (mais de 73 milhões de pessoas por ano, os percentuais de 12% e 2%, a concentração de mais de 80% da necessidade em países de baixa e média renda) são citações de outras publicações, incluindo comissões anteriores da própria The Lancet e estimativas da Organização Mundial da Saúde, não medições novas feitas pelos 17 signatários.

Isso não invalida o conteúdo. Mas muda o peso que se pode dar a ele: trata-se de uma leitura de especialistas engajados no próprio campo, vários dos quais ocupam cargos de liderança nas organizações que o texto recomenda fortalecer, como a Worldwide Hospice Palliative Care Alliance e a International Association for Hospice and Palliative Care, algo que os próprios autores declaram no rodapé do artigo. É honestidade científica reconhecer essa origem: um chamado à ação bem fundamentado em evidência de terceiros, redigido por quem tem interesse direto e declarado em que a ação aconteça.

O tamanho do problema, segundo os dados citados

O número de abertura é grande o suficiente para parar qualquer leitura: mais de 73 milhões de pessoas por ano vivenciam, segundo as estimativas citadas pelos autores, sofrimento grave relacionado à saúde (serious health-related suffering, um sofrimento associado a doença ou lesão grave que poderia ser evitado ou aliviado com cuidados paliativos). Desse total, apenas cerca de 12% recebem efetivamente esse cuidado. Entre crianças, a proporção cai para 2%.

Para colocar esse hiato em perspectiva histórica: em 2014, a Assembleia Mundial da Saúde resolveu, por unanimidade dos países membros, que cuidados paliativos são uma responsabilidade ética dos sistemas de saúde, não um serviço opcional a ser oferecido apenas quando sobra orçamento. Mais de dez anos separam essa resolução da fotografia atual descrita no artigo. Os autores argumentam que a cobertura universal de saúde, meta que a Organização das Nações Unidas estabeleceu para 2030, é matematicamente inatingível se essa lacuna de acesso persistir, porque sofrimento grave não tratado não deixa de existir só porque não está sendo contabilizado nas metas de cobertura.

O próprio artigo cita, como base normativa dessa argumentação, a resolução de 2014 da Assembleia Mundial da Saúde, segundo a qual “cuidados paliativos são uma responsabilidade ética dos sistemas de saúde” (tradução livre do texto original em inglês). Os autores vão além da citação histórica e escrevem, em primeira pessoa coletiva, que cuidados paliativos deveriam ser reconhecidos oficialmente por todos os ministérios da saúde como essenciais, não opcionais, e que a cobertura universal de saúde é inatingível sem eles. É uma afirmação de posição, redigida como recomendação de política pública, não como resultado estatístico testado, mas ancorada em uma resolução da OMS que já existe formalmente há mais de dez anos.

Quem mais precisa é quem menos recebe

O segundo dado do artigo é, talvez, o mais incômodo, porque descreve não apenas uma escassez, mas uma inversão. Pessoas em países de baixa e média renda respondem por mais de 80% da necessidade global de cuidados paliativos, segundo as estimativas citadas. Mas a maior parte de quem efetivamente recebe esse cuidado vive em países de alta renda. A distribuição do sofrimento e a distribuição do cuidado não apenas deixam de coincidir: apontam, majoritariamente, para direções opostas.

O artigo soma a esse quadro outro conjunto de estimativas para 2025: cerca de 305 milhões de pessoas vivenciando crises humanitárias no mundo, com uma em cada cinco crianças vivendo em contexto de conflito armado ou afetada por ele, além de mais de 8% da população mundial em situação de pobreza extrema. Nenhum desses números mede diretamente cuidados paliativos, mas todos apontam para a mesma população: pessoas em contextos de maior vulnerabilidade estrutural são, sistematicamente, as que menos aparecem do lado do acesso ao cuidado quando enfrentam doença grave.

A métrica que não mede sofrimento

Um dos argumentos mais técnicos do artigo é também um dos mais reveladores. A métrica mais usada no mundo para medir carga de doença em nível populacional é o DALY (disability-adjusted life year, ou ano de vida ajustado por incapacidade), que soma os anos perdidos por morte prematura aos anos vividos com incapacidade. É uma ferramenta poderosa para orientar prioridades de saúde pública, mas tem um ponto cego relevante: ela não incorpora, em si, o sofrimento vivido pela pessoa, sobretudo o sofrimento grave associado ao fim da vida.

Os autores endossam uma proposta alternativa em desenvolvimento, os SALYs (suffering-adjusted life years, anos de vida ajustados por sofrimento), formulada pela Comissão Lancet sobre Acesso Global a Cuidados Paliativos e Alívio da Dor. A métrica ainda não está implementada oficialmente em nenhum sistema de saúde, mas o argumento por trás dela é simples de entender: se um sistema de saúde só mede o que consegue contar (mortes evitadas, anos de vida ganhos), ele pode registrar sucesso estatístico inteiro sem nunca ter perguntado, a nenhum paciente, se essa pessoa sofreu no processo. O artigo também insiste que essa responsabilidade não pode recair só sobre especialistas: cuidar de quem enfrenta sofrimento grave relacionado à saúde é, segundo os autores, tarefa explícita de todo profissional que atende pessoa com doença grave, do cardiologista ao clínico de atenção primária, passando por enfermagem, serviço social, farmácia e capelania, sempre adaptada à cultura de cada comunidade.

O que o CUIDAR+ vê

Sob a Centralidade no Paciente, o ponto mais forte deste artigo é justamente a crítica ao DALY: uma métrica de saúde pode parecer bem-sucedida sem nunca ter perguntado se a pessoa, individualmente, sofreu para chegar até ali. Medir sofrimento é mais difícil do que medir sobrevida, mas a dificuldade de medir não é motivo para deixar de tentar. Sob a Clínica Ampliada, a insistência dos autores em que cuidado paliativo não é trabalho de um único especialista, e sim de toda a rede de profissionais que cerca uma pessoa com doença grave, confirma algo que a prática clínica já mostra todos os dias: sem integração entre especialidades e sem adaptação cultural ao território, mesmo o cuidado tecnicamente disponível não chega a quem precisa.

Sob a Honestidade Científica, o valor deste artigo está em ser lido pelo que ele é: uma recomendação coletiva de especialistas, fundamentada em evidência de terceiros, redigida por pessoas com interesse legítimo e declarado em que a mudança aconteça. Isso não diminui a força do argumento. Diminuiria, sim, tratá-lo como se fosse um resultado de pesquisa original, uma extrapolação que o próprio texto não pede e que este artigo, deliberadamente, evita fazer.

Da Lancet ao SUS: o que essa leitura significa no Brasil

O Brasil não é citado nominalmente no artigo, mas se encaixa, estruturalmente, no grupo de países de renda média que os autores descrevem como concentrando a maior parte da necessidade global e a menor parte do acesso. A Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída no país em 2024, avançou justamente na direção que o artigo defende: reconhecer cuidados paliativos como parte integrada do cuidado em qualquer fase de doença que ameace a vida, e não como um serviço à parte, acionado apenas nos últimos dias. Mas o hiato entre reconhecimento formal e disponibilidade real de equipes especializadas, sobretudo fora dos grandes centros urbanos e nos serviços de atenção primária, ainda é significativo, e ecoa em escala nacional o mesmo padrão que o artigo descreve em escala global.

A defesa do artigo de que cuidado paliativo é responsabilidade de toda a equipe de saúde, não apenas de especialistas dedicados, também dialoga diretamente com uma estrutura que o SUS já possui: a Atenção Primária à Saúde, por meio da Estratégia Saúde da Família, tem alcance territorial e vínculo longitudinal com famílias que nenhum serviço especializado isolado consegue replicar sozinho. Capacitar essa rede já existente para identificar precocemente necessidade paliativa, em vez de depender exclusivamente de encaminhamentos tardios a serviços especializados escassos, é uma forma concreta de aproximar a prática brasileira do que o artigo chama de responsabilidade ética distribuída, sem esperar por uma expansão de especialistas que, no ritmo atual, dificilmente chegaria a tempo para a maioria de quem precisa.

Vale também qualificar o alcance dessa leitura: o artigo original não apresenta dados desagregados por país, o que significa que qualquer afirmação sobre o Brasil especificamente é uma extrapolação da equipe CUIDAR+ a partir de um padrão internacional descrito para o conjunto de países de baixa e média renda, não um número citado no texto-fonte. É uma diferença que importa para quem lê com rigor: o hiato entre necessidade e acesso no Brasil é plausível à luz do argumento global do artigo, mas ainda não foi medido com a mesma metodologia aplicada aqui, o que reforça, também em escala nacional, a defesa dos próprios autores por mais dados robustos para orientar política pública.

Baseado em: Rosa WE, Connor S, Aggarwal G, Alsirafy S, Brennan J, Davies H, Downing J, Ferrell B, Harding R, Knaul FM, Luyirika EBK, Marroquín MM, Marston J, Radbruch L, Rajagopal MR, Sallnow L, Krakauer EL. Relieve the suffering: palliative care for the next decade. The Lancet. 2025;405(10492):1802-1804. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)00678-6. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).

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