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Até este estudo, o Brasil não tinha um instrumento capaz de responder a uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, decisiva na triagem de cuidados paliativos: a pessoa à minha frente precisa de cuidado paliativo geral, prestado por uma equipe treinada mas não especializada, ou de cuidado especializado, que exige formação específica para lidar com casos mais complexos? O país já contava com ferramentas validadas para identificar quem precisa de cuidados paliativos, como o SPICT-BR™ e o NECPAL-BR, mas nenhuma delas fazia essa distinção. Um estudo conduzido em uma unidade hospitalar do Rio Grande do Sul, publicado em 2026 na revista Palliative and Supportive Care, preencheu essa lacuna ao traduzir e adaptar culturalmente para o português brasileiro o instrumento suíço ID-PALL©, dando origem à versão nacional: o IDPALL-BR. No caminho entre um idioma e outro, um dos itens do instrumento original precisou ser apagado por completo, e o motivo revela algo maior do que tradução de palavras.
O que é o ID-PALL© e por que adaptar um instrumento clínico não é traduzir
O ID-PALL© (Identification des patients nécessitant des soins PALLiatifs généraux et spécialisés) foi desenvolvido na Suíça em 2020 como ferramenta de triagem para identificar, entre pessoas com doenças que ameaçam a vida, quem precisa de cuidados paliativos gerais e quem precisa de cuidados paliativos especializados. Ele é composto por dois módulos de resposta binária, Sim ou Não: o ID-PALL G, voltado à identificação de necessidade geral, e o ID-PALL E, voltado à identificação de necessidade especializada. Transportar esse instrumento para outro idioma e outro sistema de saúde não é um exercício de dicionário. Cada item carrega, junto com as palavras, pressupostos clínicos, culturais e legais do país onde foi criado, e esses pressupostos nem sempre correspondem à realidade do país de destino. É exatamente esse processo, de tradução seguida de verificação rigorosa de equivalência de sentido, que caracteriza uma adaptação transcultural.
Quatro etapas até a versão brasileira: o método de adaptação
A equipe de pesquisa seguiu as recomendações metodológicas de Herdman para adaptação transcultural de instrumentos, estruturadas em quatro etapas sequenciais. Na primeira, dois tradutores bilíngues brasileiros traduziram o instrumento do francês para o português de forma independente, e as duas versões foram sintetizadas em uma única versão de consenso. Na segunda, dois tradutores bilíngues franceses, sem conhecimento prévio do instrumento original, fizeram a tradução reversa dessa versão de volta ao francês, processo que não identificou discrepâncias relevantes e recebeu aprovação dos desenvolvedores suíços para seguir adiante. Na terceira etapa, um comitê de 11 especialistas em cuidados paliativos e pesquisa metodológica, representando quatro das cinco regiões do Brasil, avaliou cada item quanto à equivalência semântica, idiomática, conceitual e cultural, produzindo um coeficiente de validade de conteúdo médio de 0,95. Na quarta e última etapa, a versão pré-final foi testada em ambiente hospitalar real por 30 profissionais de saúde, com coeficiente de validade de conteúdo de 0,909, considerado satisfatório frente ao limiar de aceitabilidade de 0,80.
Escara virou lesão por pressão: os ajustes que provam o rigor
A qualidade de uma adaptação transcultural aparece nos detalhes que a maioria das pessoas nunca perceberia como decisão deliberada. O termo francês para escara foi inicialmente traduzido de forma literal, mas substituído por lesão por pressão, terminologia hoje recomendada pelo consenso clínico brasileiro em substituição a termos como escara e úlcera por pressão. O termo código, referente a protocolos de reanimação, foi trocado por protocolo, que melhor reflete o sentido de diretriz padronizada de conduta no contexto brasileiro. Ventilação artificial, embora tecnicamente correta, foi substituída por ventilação mecânica, expressão de uso corrente nas equipes de saúde do país. Os termos ingleses Advance Care Plan e Advance Directives foram vertidos para Planejamento Antecipado de Cuidados e Diretivas Antecipadas de Vontade, alinhados à terminologia já consolidada na bioética clínica brasileira. Depois do próprio pré-teste com profissionais, novos ajustes ainda foram feitos: o item sobre instabilidade clínica ganhou o adjetivo clínica para maior precisão, e tratamento curativo foi substituído por tratamentos modificadores do curso da doença, expressão mais alinhada ao vocabulário de cuidados paliativos.
Quando a lei entra na tradução: o item que precisou ser removido
Nem todo ajuste em uma adaptação transcultural é uma questão de escolha de palavra. Um dos itens do ID-PALL E, na versão original suíça, perguntava sobre pedido de suicídio assistido, prática regulamentada na Suíça. Na adaptação brasileira, esse item precisou ser removido por completo do instrumento, porque a prática não é permitida pelo Código Penal brasileiro. Os próprios autores do estudo afirmam que a remoção não prejudicou nem o item isolado nem o instrumento como um todo, e a versão sem esse item foi aprovada sem ressalvas pelos desenvolvedores originais do ID-PALL©. Esse episódio é o retrato mais concreto de que adaptar um instrumento clínico entre sistemas de saúde diferentes não é apenas encontrar a palavra equivalente em outro idioma. É também confrontar o conteúdo do instrumento com a legislação, a cultura e o desenho do sistema de saúde do país onde ele vai ser efetivamente aplicado, e aceitar que nem tudo que faz sentido em um contexto pode, ou deve, atravessar a fronteira intacto.
O Brasil e a lacuna que o IDPALL-BR ajuda a preencher
O Brasil está classificado no nível 3b de uma escala internacional de seis pontos usada pela WHPCA para medir o grau de desenvolvimento dos cuidados paliativos em cada país, uma posição que indica disponibilidade ainda limitada de morfina, número restrito de serviços especializados e baixa conscientização entre profissionais e público em geral sobre o tema. Em maio de 2024, a Portaria GM/MS nº 3.681 instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos no âmbito do SUS, um passo institucional relevante, mas que, isoladamente, não resolve a ausência de ferramentas práticas de triagem no cotidiano das equipes. O país já dispunha de instrumentos validados para identificar quem precisa de cuidados paliativos, como o SPICT-BR™ e o NECPAL-BR, mas nenhum deles diferenciava, dentro dessa população, quem precisa de cuidado geral e quem precisa de cuidado especializado. É essa lacuna específica, de estratificação e não apenas de identificação, que o IDPALL-BR foi desenvolvido para preencher, com validade de conteúdo já estabelecida em dois momentos distintos do processo de validação.
O que o CUIDAR+ vê
Sob a Centralidade no Paciente, o achado central deste estudo é que um instrumento de triagem só protege quem está sendo cuidado se a linguagem que o compõe fizer sentido, legal e culturalmente, no lugar onde ele é aplicado; um item mal traduzido ou incompatível com a realidade local pode gerar confusão exatamente no momento em que a triagem deveria trazer clareza. Sob a Clínica Ampliada, a distinção entre necessidade geral e especializada de cuidados paliativos importa porque parte real da demanda por cuidado pode permanecer invisível para o sistema de saúde quando não existe uma ferramenta capaz de diferenciá-la, e nomear essa diferença é o primeiro passo para organizar a resposta assistencial de forma proporcional a cada caso. Sob a Honestidade Científica, os próprios autores reconhecem que o ID-PALL© é um instrumento emergente, sem estudos primários prévios que permitam comparação, e recomendam validação em outros contextos assistenciais além do hospitalar, incluindo o domicílio, o que ainda não foi feito.
Da validação de conteúdo à prática: o que ainda falta
É importante situar com precisão o que este estudo mede e o que ele não mede. Trata-se de um estudo descritivo e metodológico de tradução e adaptação transcultural, com avaliação de equivalência semântica, não de um ensaio clínico que meça desfecho em pacientes ou comprove impacto do instrumento na prática assistencial. Os próprios autores apontam limitações relevantes: a natureza dicotômica do instrumento, com respostas restritas a sim ou não, pode limitar a sensibilidade para captar nuances em situações de neutralidade ou incerteza clínica; por se tratar de instrumento emergente, não há ainda estudos primários ou revisões sistemáticas que permitam discussão comparativa de dados; e a validação, até este momento, ocorreu exclusivamente em ambiente hospitalar, sendo que os próprios desenvolvedores do ID-PALL© recomendam validação também em outros contextos assistenciais, como o domicílio, ainda não realizada. Os autores são claros ao afirmar que, embora a validade de conteúdo já esteja estabelecida, é necessária implementação mais ampla para avaliar o impacto real do instrumento na triagem de pacientes com doenças que ameaçam a vida.
Para equipes de cuidados paliativos no Brasil, incluindo as que atuam dentro do SUS, o IDPALL-BR representa uma ferramenta nova, com validade de conteúdo satisfatória e nascida de um processo metodológico rigoroso, capaz de apoiar uma distinção que faltava no arsenal de instrumentos validados no país: diferenciar, entre pessoas com doença que ameaça a vida, quem precisa de cuidado paliativo geral e quem precisa de cuidado especializado. É um passo metodológico consolidado, não o fim do caminho. A implementação em maior escala, a validação em contextos além do hospitalar e o acompanhamento do impacto prático seguem como etapas necessárias, e a história da remoção de um único item por incompatibilidade legal é um lembrete de que toda adaptação de instrumento de saúde entre países carrega, dentro de si, a obrigação de respeitar a legislação e a cultura de quem vai efetivamente utilizá-lo.
Baseado em: Pedroso FI, Freitas EdO, Lopes LFD, Greco PBT, Sehnem GD, Obeid S, Laranjeira C, Cogo SB. Translation and cross-cultural adaptation of the Identification des patients nécessitant des soins PALLiatifs généraux et spécialisés (ID-PALL©) to Brazilian Portuguese. Palliative and Supportive Care. 2026;24:e207,1-8. DOI: 10.1017/S1478951526103265. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).