Slides do Carrossel
“Cuidados paliativos” e “cuidados de suporte” aparecem, na prática clínica, como se fossem a mesma coisa dita de duas formas. Uma revisão publicada em 2025 na Clinical Medicine, ligada a uma atividade de educação médica continuada do Royal College of Physicians, mostra que não são: os dois termos não são sinônimos, se sobrepõem de formas diferentes conforme a organização internacional consultada, e a confusão entre eles tem consequência prática real, tanto para quem presta o cuidado quanto para quem o recebe. O carrossel desta semana apresentou o argumento central. Este artigo aprofunda a origem dos termos, as definições em disputa e o que essa distinção significa para a prática no Brasil.
Um nome que já nasceu fugindo de um estigma
O termo “cuidados paliativos” não existe desde sempre. Segundo os autores, ele foi criado nos anos 1970 justamente para escapar da associação negativa e niilista com “cuidados de hospício” (hospice care, termo de origem inglesa sem relação com o sentido de “hospício” como instituição psiquiátrica em português). A ideia era simples: um nome novo, sem o peso histórico do antigo, para um cuidado que sempre existiu, mas que precisava de uma identidade própria dentro da medicina.
A definição consensual de cuidados paliativos, segundo a Organização Mundial da Saúde e a International Association for Hospice and Palliative Care (IAHPC), é o cuidado ativo e holístico de pessoas com sofrimento grave relacionado à saúde, físico, psicológico, social ou espiritual. A definição é explícita quanto a um ponto que a prática clínica ainda erra com frequência: esse cuidado pode começar em qualquer fase de uma doença que ameaça a vida, não apenas perto do fim dela. Tratar “cuidados paliativos” como sinônimo de “cuidados de fim de vida” é um erro comum e prejudicial à própria adoção precoce do cuidado.
Décadas depois de sua criação, segundo os autores da revisão, muitas equipes de cuidados paliativos especializados estão se rebatizando “cuidados de suporte”, ou “cuidados de suporte e paliativos”, pelo mesmo motivo original: escapar do estigma que passou a se associar ao próprio termo “cuidados paliativos”.
Suporte não quer dizer a mesma coisa para todo mundo
Se “cuidados paliativos” tem uma definição relativamente consensual, “cuidados de suporte” não tem. O artigo contrasta explicitamente duas leituras que vêm de organizações internacionais diferentes, sem tentar escolher uma delas como correta.
Para a Multinational Association of Supportive Care in Cancer (MASCC), cuidados de suporte são a prevenção e o manejo dos efeitos adversos do câncer e de seu tratamento, ao longo de toda a jornada oncológica, da reabilitação à prevenção secundária, passando pela sobrevivência e pelo cuidado de fim de vida. Nessa leitura, os cuidados paliativos são uma parte dos cuidados de suporte, um subconjunto dentro de um conceito mais amplo.
Já para a Lancet Oncology Commission, os dois termos descrevem categorias paralelas, não uma contida na outra: cuidados de suporte seriam relevantes em qualquer fase da doença, inclusive depois da cura, enquanto cuidados paliativos seriam aplicáveis apenas em doença que ameaça a vida. São dois mapas conceituais diferentes para o mesmo território, e os autores da revisão são claros ao afirmar que essa divergência entre organizações internacionais é real, não um detalhe secundário.
O efeito prático de trocar o nome, e o risco de trocar só o nome
A revisão cita, de forma secundária e sem magnitude numérica reproduzida no texto-fonte, um estudo (Dalal e colaboradores) que associou a rebatização de equipes de “paliativo” para “suporte” a mais encaminhamentos oncológicos, e mais precoces. O achado sugere que o nome importa: um paciente e um médico oncologista podem reagir de forma diferente a um encaminhamento para “cuidados de suporte” do que a um encaminhamento para “cuidados paliativos”, mesmo quando a equipe do outro lado da porta é exatamente a mesma.
Mas os próprios autores fazem um alerta importante, que evita transformar essa mudança de nome em solução simples: a maioria das equipes de cuidados paliativos especializados tem formação limitada em áreas centrais do cuidado de suporte “de verdade”, no sentido mais amplo da MASCC, como manejo de toxicidade de tratamento oncológico, reabilitação, vigilância e prevenção de câncer e sobrevivência. Trocar a placa da porta sem ampliar a equipe por trás dela cria um descompasso entre o que o serviço promete pelo nome e o que efetivamente entrega.
Três níveis de cuidados paliativos, e uma conclusão que não é disputa
A European Association for Palliative Care (EAPC) descreve três níveis de cuidados paliativos, úteis para situar onde cada profissional de saúde se encaixa. A abordagem paliativa é praticada por qualquer profissional de saúde, em qualquer ponto do sistema, como um conjunto de princípios gerais de cuidado holístico. Os cuidados paliativos generalistas são prestados por profissionais que não são especialistas na área, mas têm alguma formação específica. Os cuidados paliativos especializados exigem uma equipe multiprofissional dedicada, com formação e experiência específicas, reservada para os casos mais complexos. “Medicina paliativa” é o nome da especialidade médica ligada a esse terceiro nível.
Depois de mapear as divergências entre organizações, os próprios autores fecham o artigo com uma frase que resume o argumento sem transformá-lo em oposição: “cuidados paliativos não são sinônimo de cuidados de suporte, mas são um aspecto importante dele”. Vale notar o que essa frase não diz: ela não escolhe uma das duas definições concorrentes de cuidados de suporte, e não sugere que um termo deva substituir o outro. O convite é a precisão, não a disputa entre nomes.
O artigo ainda cataloga outras variações do vocabulário que circulam na literatura internacional, e que valem registro por precisão: “cuidados paliativos precoces” (early palliative care), iniciados no momento ou logo após o diagnóstico de câncer avançado, muitas vezes em paralelo ao tratamento oncológico ativo; “cuidados paliativos oportunos” (timely palliative care), a mesma ideia personalizada conforme as necessidades específicas de cada paciente; “melhor cuidado de suporte” (best supportive care), termo historicamente usado para descrever o braço-controle em ensaios clínicos de câncer avançado, muitas vezes sem cuidado específico definido, embora hoje conte com padrões de consenso próprios; e “cuidado de suporte aprimorado” (enhanced supportive care), uma iniciativa do NHS England que funciona, na prática, como sinônimo de cuidados paliativos precoces. Cada um desses termos carrega uma nuance própria, e a confusão entre eles não é exclusividade do par “paliativo/suporte”.
O que o CUIDAR+ vê
Sob a Centralidade no Paciente, o ponto mais direto deste artigo é que, quando uma equipe muda de nome sem mudar de escopo, é o paciente quem herda a confusão sobre o que o serviço realmente oferece. Uma pessoa encaminhada para “cuidados de suporte” pode chegar esperando reabilitação oncológica ampla e encontrar, na prática, a mesma equipe de cuidados paliativos de sempre, só que com outra placa na porta.
Sob a Clínica Ampliada, o artigo aponta uma lacuna estrutural que vale levar a sério: cuidado de suporte de verdade, no sentido mais amplo da MASCC, exige uma equipe multiprofissional maior do que a maioria das equipes de cuidados paliativos especializados tem hoje, incluindo profissionais de reabilitação, vigilância oncológica e sobrevivência. Ampliar o nome sem ampliar a equipe é, na prática, meia mudança, e meia mudança tende a gerar mais confusão, não menos.
Sob a Honestidade Científica, o próprio artigo é um exemplo do que ele defende: em vez de apresentar uma única definição de “cuidados de suporte” como se fosse consenso, os autores registram explicitamente que não existe consenso entre organizações internacionais sobre essa relação. Essa é uma escolha editorial que vale reconhecer, e reproduzir: divergência real registrada como divergência, não escondida atrás de uma definição só para simplificar a comunicação.
Da Clinical Medicine à prática no Brasil e no SUS
O artigo não discute o Brasil, e o escopo da discussão sobre “cuidados de suporte” no texto original é majoritariamente oncológico, vindo de organizações e literatura da área (MASCC, “supportive oncology”). Ainda assim, a distinção terminológica que o artigo mapeia já aparece na prática brasileira, mesmo sem o mesmo vocabulário: é comum encontrar, em hospitais e planos de saúde do país, equipes descritas como “cuidados de suporte oncológico” convivendo com equipes de “cuidados paliativos”, às vezes com fronteiras pouco claras entre uma e outra para quem está do lado de fora, paciente ou até outro profissional de saúde solicitando um encaminhamento.
A Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída no Brasil em 2024, reforça exatamente o princípio que a definição da OMS e da IAHPC já estabelece: cuidados paliativos podem e devem começar em qualquer fase de uma doença que ameaça a vida, integrados ao tratamento, não como uma etapa separada reservada ao fim dela. Nomear com precisão o que cada serviço oferece, seja “cuidados paliativos” no sentido dos três níveis da EAPC, seja “cuidados de suporte” em um dos dois sentidos internacionais mapeados pelo artigo, ajuda o paciente brasileiro a entender o que esperar do encaminhamento que recebeu, em vez de decifrar isso sozinho pela experiência.
Para equipes e serviços de saúde no Brasil que estejam considerando adotar o termo “cuidados de suporte”, o artigo sugere uma pergunta prática antes da decisão: a equipe está de fato ampliando seu escopo multiprofissional (reabilitação, vigilância oncológica, sobrevivência), ou está apenas trocando a placa da porta? A resposta honesta a essa pergunta é o que separa uma atualização terminológica real de uma rebatização que só desloca, sem resolver, o mesmo problema de estigma que motivou a criação do termo “cuidados paliativos” há mais de cinquenta anos.
Baseado em: Taylor A, Davies A. Palliative care or supportive care? Clinical Medicine. 2025;25:100487. DOI: 10.1016/j.clinme.2025.100487. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).