Câncer sem Metástase: Cuidado Paliativo Chega Mais Tarde

Um estudo com 741 pacientes internados por câncer mostra que quem não tem metástase espera mais pelo cuidado paliativo, mesmo com risco de morte igual.

Um estudo retrospectivo com 741 pacientes internados por câncer em um hospital universitário de Viena revela algo que os próprios pesquisadores chamam de oportunidade perdida: pessoas sem metástase esperam, em média, dois dias a mais do que pessoas com metástase para receber a primeira consulta de cuidados paliativos, mesmo com risco de morte hospitalar praticamente idêntico entre os dois grupos. O carrossel desta semana apresentou o contraste central desse achado. Este artigo aprofunda o desenho do estudo, o papel estatístico do status metastático como preditor de encaminhamento, o que a diferença por sexo sugere sobre o próprio sistema, e o que esse padrão vienense tem a dizer sobre como o Brasil decide quem recebe cuidado paliativo, e quando.

O que este estudo mediu, e o que ele não mede

O estudo é uma coorte retrospectiva, unicêntrica, conduzida na Medical University of Vienna com dados administrativos de 2016 a 2022. A amostra reúne 741 pacientes internados com câncer de órgão sólido que tiveram, na chamada internação-índice, o primeiro contato com a equipe de cuidados paliativos do hospital, 386 com doença metastática (52,1%) e 355 sem metástase à distância (47,9%). Pacientes com qualquer contato prévio com serviços de cuidados paliativos, inclusive ambulatorial, foram excluídos, e cada paciente entrou apenas uma vez na análise. Os pesquisadores usaram estimativas de Kaplan-Meier e testes de log-rank para descrever o tempo até a primeira consulta, e modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox, ajustados por status metastático, idade e sexo, para identificar quais fatores estavam associados a esse tempo de forma independente. É importante frisar o que esse desenho permite concluir, e o que não permite. Por ser um estudo observacional baseado em registros administrativos, ele não captura informação clínica detalhada: não há dados sobre intenção terapêutica, carga de sintomas, sofrimento psicossocial, comportamento de busca por ajuda do próprio paciente, práticas de encaminhamento de cada médico, ou deterioração clínica aguda, fatores que poderiam confundir a associação observada. Os próprios autores afirmam explicitamente que confundimento residual por indicação não pode ser excluído, e que a associação entre consulta precoce e menor tempo de internação não deve ser interpretada como evidência de efeito causal.

A diferença que não deveria existir: dias de espera por status metastático

O achado central é direto: o tempo mediano até a primeira consulta de cuidados paliativos foi de 9 dias (IC 95%: 7-11) entre pacientes sem metástase, contra 7 dias (IC 95%: 6-8) entre pacientes com metástase (p=0,004). No modelo de Cox ajustado, o status metastático se manteve como preditor independente de consulta mais precoce (HR 1,24; IC 95%: 1,07-1,44; p=0,004), o que quer dizer que, isoladamente, ter metástase aumentou a chance de ser chamado mais cedo pela equipe de cuidados paliativos, mesmo depois de considerar idade e sexo. O mesmo modelo revelou um segundo achado que os autores discutem com cautela: pacientes do sexo feminino também foram encaminhados mais cedo, de forma independente (HR 1,20; IC 95%: 1,04-1,39; p=0,01). Os pesquisadores não determinam um mecanismo causal a partir dos dados administrativos disponíveis, mas levantam explicitamente, como hipóteses da literatura e não como achado direto deste estudo, possíveis diferenças na expressão de sintomas entre homens e mulheres, no comportamento de busca por ajuda, na comunicação com a equipe de saúde, e um possível viés de percepção clínica sobre necessidade de cuidados paliativos conforme o sexo do paciente. A pergunta que os próprios autores fazem no artigo é direta: por que pacientes sem metástase, muitas vezes com doença avançada, são encaminhados de forma mais hesitante do que aqueles com doença metastática? A hipótese proposta é que a ausência de metástase, mesmo em estágio avançado, “deixa espaço para ambiguidade terapêutica”, a possibilidade de tratamento curativo ainda em aberto, enquanto a metástase costuma ser lida de forma mais imediata como sinal de incurabilidade, o que pode precipitar discussões mais cedo sobre objetivos de cuidado.

Mesmo risco, mesma carga de doença: o que os números realmente mostram

Se o atraso no encaminhamento de pacientes sem metástase refletisse, de fato, menor necessidade clínica, seria esperado encontrar diferenças relevantes em desfechos de gravidade entre os dois grupos. O estudo não encontrou isso. A mortalidade intra-hospitalar foi semelhante: 53,0% entre pacientes sem metástase e 49,2% entre os com metástase (p=0,31), e o tempo total de internação também foi parecido entre os grupos (20 dias em ambos, p=0,11). Quanto à carga de outras doenças, o Índice de Comorbidade de Charlson não ajustado era maior no grupo metastático (mediana 9 versus 5, p<0,001), mas isso reflete, em grande parte, o próprio peso da metástase na pontuação do índice. Ao excluir esses pontos e calcular uma versão modificada do índice, o grupo sem metástase apresentou carga de comorbidade não oncológica igual ou até discretamente maior (mediana 5 [5-6] versus 5 [4-6], p<0,001). Em outras palavras, quando se olha para o que de fato ameaça a sobrevida e a qualidade de vida dessas pessoas durante a internação, morte no hospital e outras doenças associadas, os dois grupos são parecidos. A diferença real está em qual rótulo diagnóstico cada paciente carrega, e é esse rótulo, não a gravidade clínica medida pelo estudo, que parece influenciar quando a equipe de cuidados paliativos é chamada.

Quando o cuidado chega cedo, o que muda

Apesar da diferença por status metastático, a maioria dos pacientes do estudo, de ambos os grupos, simplesmente não recebeu cuidado paliativo precoce. Apenas 16,9% dos pacientes sem metástase e 22,5% dos pacientes com metástase tiveram a primeira consulta dentro de 72 horas da internação (diferença que não alcançou significância estatística convencional, p=0,055), o que significa que, somando os dois grupos, menos de 1 em cada 4 pacientes internados chegou a tempo. Quando a consulta aconteceu dentro desse prazo, a diferença no tempo de internação foi expressiva nos dois grupos: de 26 dias (IC 95%: 21-31) para 8 dias (IC 95%: 5-11) entre os pacientes sem metástase recebidos de alta ou transferidos vivos, e de 20 dias (IC 95%: 18-23) para 9 dias (IC 95%: 5-13) entre os pacientes com metástase. No modelo de Cox, a consulta precoce esteve associada a uma redução consistente do tempo de internação (HR 0,966; IC 95%: 0,961-0,971; p<0,001), enquanto o status metastático isoladamente não se mostrou associado ao tempo de internação quando ajustado (HR 1,14; IC 95%: 0,99-1,33; p=0,08). Ou seja: não é ter ou não metástase que está associado ao tempo de internação, é a precocidade da consulta de cuidados paliativos. Ainda assim, os autores repetem a mesma ressalva metodológica de forma explícita: por se tratar de um estudo observacional, o confundimento por indicação não pode ser descartado, pacientes encaminhados mais cedo podem ser, por razões não capturadas nos dados administrativos, pacientes clinicamente “mais fáceis de identificar” como candidatos ao cuidado paliativo, o que tornaria parte dessa associação um reflexo da seleção, não necessariamente do efeito da própria consulta precoce.

O que o CUIDAR+ vê

Centralidade no Paciente: quando o sistema decide “quem precisa” de cuidado paliativo olhando primeiro para um rótulo no prontuário, ter ou não metástase, e só depois para a pessoa internada à sua frente, é a pessoa quem paga o preço do atraso, ainda que o risco de morrer no mesmo hospital, na mesma internação, seja o mesmo. Clínica Ampliada: encaminhar por hábito, associando cuidado paliativo automaticamente à metástase, é uma escolha do próprio sistema de saúde, moldada por décadas de associação cultural entre metástase e incurabilidade, não uma decisão baseada estritamente nas necessidades reais de cada internação.

Honestidade Científica: os próprios autores deste estudo são explícitos ao afirmar que “o status metastático isoladamente é um proxy imperfeito para as necessidades de cuidados paliativos de pacientes com câncer”, e que qualquer internação hospitalar de paciente com câncer, metastático ou não, deveria levar a equipe a reavaliar essas necessidades. É um estudo observacional, com dados administrativos que não captam intenção terapêutica nem sofrimento real, e os próprios pesquisadores alertam que a associação entre consulta precoce e menor tempo de internação não deve ser lida como prova de causa e efeito. A honestidade aqui está em levar o achado a sério sem inflar o que ele, por desenho, não pode provar.

De Viena ao Brasil: repensar o gatilho do encaminhamento paliativo

A amostra deste estudo vem de um único hospital universitário austríaco, inserido em um sistema de saúde com cobertura universal e longa tradição em cuidados paliativos, o que limita a generalização direta dos números para o Brasil. Ainda assim, a lógica central, a de que um rótulo diagnóstico isolado (ter ou não metástase) funciona, na prática, como senha de acesso ao cuidado paliativo, não é exclusividade vienense. No sistema de saúde brasileiro, marcado por acesso fragmentado e grande variação entre serviços, o encaminhamento a cuidados paliativos ainda costuma depender menos de ferramentas de triagem estruturadas por necessidade, como o SPICT-4ALL, já discutido em outro artigo deste blog, e mais de marcos informais e intuitivos: a palavra “metástase” no prontuário, a expressão “não há mais nada a fazer” numa nota médica, ou a simples percepção subjetiva de proximidade da morte. Esses marcos são exatamente o tipo de proxy imperfeito que este estudo questiona. Para o CUIDAR+, o caminho prático não depende de replicar o desenho vienense, depende de três frentes concretas e viáveis dentro do sistema brasileiro: adotar critérios de triagem paliativa baseados em necessidade e carga de comorbidade, não apenas em estadiamento oncológico, para toda internação de paciente com câncer; medir, mesmo que de forma simples, o tempo entre a internação e a primeira consulta de cuidados paliativos como indicador de qualidade assistencial, independentemente do status metastático do paciente; e treinar equipes de oncologia e clínica médica para reconhecer que ausência de metástase não significa ausência de necessidade paliativa, especialmente em pacientes com múltiplas comorbidades e doença avançada não metastática. Nenhuma dessas frentes exige provar a relação causal que este desenho de estudo, por natureza, não permite provar. Exige, isso sim, levar a sério um padrão observado de ponta a ponta na coorte vienense: quando o risco de morrer no hospital é semelhante, o tempo de espera pelo cuidado que poderia aliviar esse período também deveria ser.

Baseado em: Paschen C, Pinter K, Hofbauer TM, Tschischka I, Wenzel C, Adamidis F, Robak O, Masel EK (2026). Missed opportunities: delayed in-hospital palliative care consultations in patients with non-metastatic cancers. Supportive Care in Cancer, 34:949. DOI: 10.1007/s00520-026-11196-7. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).

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