Slides do Carrossel
Mais de 85% dos clínicos de cuidados paliativos se sentem confortáveis explicando o que é esse cuidado. Menos de 20% se sentem confortáveis dizendo a uma criança pequena que o pai ou a mãe está em cuidados paliativos. Essa é a distância revelada por um levantamento transversal com 231 clínicos suíços (enfermeiros e médicos), publicado em 2026 na revista Palliative and Supportive Care. O carrossel desta semana apresentou o contraste central entre essas duas tarefas. Este artigo aprofunda o desenho do estudo, a diferença entre proficiência e conforto como competências distintas, o que a literatura de comunicação em saúde já sabe sobre conversas difíceis, e o que esse achado suíço tem a dizer sobre a formação de profissionais de cuidados paliativos no Brasil.
O que este levantamento mediu, e o que ele não mede
O estudo é um levantamento transversal, online e autoaplicado, respondido entre outubro e novembro de 2021 por 231 clínicos suíços de cuidados paliativos (78,8% mulheres; 64,9% enfermeiros, 35,1% médicos), recrutados a partir do Congresso Nacional Suíço de Cuidados Paliativos e da seção médica da associação nacional palliative.ch. Para cada uma de 22 tarefas de comunicação específicas, do explicar o diagnóstico ao responder a um pedido de antecipação da morte, os participantes avaliaram quatro dimensões: proficiência percebida, conforto percebido, frequência com que realizam a tarefa, e se já receberam treinamento formal para ela. É importante frisar o que esse desenho permite concluir, e o que não permite. Por ser um levantamento transversal com um instrumento novo, desenvolvido pelos próprios pesquisadores e ainda não validado, os autores classificam os resultados textualmente como exploratórios e descritivos, nunca causais ou confirmatórios. A frequência autorrelatada também mede quantas vezes o clínico realizou a tarefa, não quantas vezes ela era necessária, uma distinção relevante para temas emocionalmente difíceis, em que uma frequência baixa pode refletir evitação da conversa, não ausência real de necessidade.
Proficiência e conforto: duas competências, não uma
O achado estatístico mais consistente do estudo é que proficiência percebida (a sensação de “saber fazer”) e conforto percebido (a dimensão emocional de realizar a tarefa sem peso) são construtos distintos, fortemente correlacionados entre si (r=0,79), mas não idênticos. Em média, os clínicos relataram proficiência significativamente maior do que conforto (teste t=3,25; p=0,001), e essa distância cresce exatamente nos temas mais delicados: responder a um pedido de tratamento considerado não indicado clinicamente (proficiência 3,32 contra conforto 2,87; p<0,001) e discutir um pedido de antecipação da morte (proficiência 3,67 contra conforto 3,34; p<0,001). O único tema em que o padrão se inverteu, com conforto superando levemente a proficiência, foi o Planejamento Antecipado de Cuidados (p=0,017), processo de conversa sobre metas de cuidado e preferências futuras antes de uma crise. Essa distinção não é apenas acadêmica: um profissional pode dominar tecnicamente o conteúdo de uma conversa (o que dizer, em que ordem, com quais palavras) e, ainda assim, carregar um desconforto real ao tê-la, o chamado labor emocional da comunicação em saúde, o esforço de manejar as próprias emoções enquanto cuida das emoções do outro.
Onde a distância mais dói: falar com os filhos pequenos
Entre as 22 tarefas avaliadas, a que apresentou o pior desempenho combinado foi orientar os pais sobre o que contar aos filhos pequenos quando um deles está em cuidados paliativos: proficiência média de 2,23 em 5, conforto médio de 2,10 em 5, e apenas 24 dos 231 participantes (10%) relataram já ter recebido algum treinamento específico para essa conversa. Para efeito de comparação, a tarefa mais dominada do levantamento inteiro, explicar o que são os cuidados paliativos, teve proficiência de 4,26 e conforto de 4,22, com mais de 85% dos clínicos se sentindo confortáveis. A literatura de comunicação em saúde já demonstrou, em outros contextos, que crianças percebem mudanças no ambiente familiar mesmo quando ninguém lhes explica o que está acontecendo, e que a ausência de uma explicação adequada tende a ser preenchida pela própria imaginação da criança, frequentemente de forma mais angustiante do que a realidade. Orientar os pais nessa conversa não é, portanto, um extra opcional do cuidado paliativo: é uma extensão direta do princípio de que a unidade de cuidado é a pessoa doente e sua família, os filhos inclusive, não apenas o corpo que está sendo tratado.
Quem ensina os que vão comunicar?
O estudo encontrou treinamento formal baixo para a maioria das 22 tarefas: menos da metade dos clínicos relatou ter recebido formação estruturada para a maior parte delas. A maioria aprendeu observando colegas (70%) ou na prática direta (89%), um padrão de formação por repetição e imitação, não por currículo estruturado. Curiosamente, em várias tarefas específicas (incluindo apresentar o próprio papel ao paciente, explicar cuidados paliativos precoces, conduzir o Planejamento Antecipado de Cuidados e comunicar morte iminente), o treinamento formal não teve associação estatisticamente significativa com proficiência ou conforto percebidos. Os próprios autores levantam três hipóteses possíveis, sem afirmar qual está correta: o treinamento recebido pode ser antigo demais para ter efeito duradouro, o conteúdo do treinamento pode estar desalinhado com a demanda real da prática clínica, ou o desenvolvimento dessas competências pode ocorrer predominantemente por vias informais, como reflexão pessoal e observação, que nenhum questionário sobre “treinamento formal” captura. Qualquer que seja a explicação correta, o achado sugere que simplesmente oferecer mais cursos, sem repensar seu conteúdo e formato, pode não ser suficiente para fechar a lacuna documentada.
A profissão como lente: médicos, enfermeiros e o autocuidado
O estudo também encontrou diferenças sistemáticas entre profissões. Médicos relataram mais proficiência e conforto em conversas centradas na doença e no tratamento: prognóstico, expectativa de vida, limitação de tratamento e comunicação com pacientes em negação (todas as diferenças com p≤0,043), além de discutir esses temas com maior frequência (p<0,001). Enfermeiros, por sua vez, relataram mais treinamento formal em tarefas de cunho emocional e espiritual, como comunicação de sentimentos, Planejamento Antecipado de Cuidados, cuidado espiritual e comunicação com famílias após o óbito (todas com p≤0,041), além de maior proficiência percebida em questões espirituais (p=0,046) e maior proficiência e conforto em práticas de autocuidado voltadas à prevenção da fadiga por compaixão e do esgotamento profissional (p≤0,029). O padrão sugere que a competência comunicacional em cuidados paliativos não é uma habilidade genérica e uniforme, mas um conjunto de competências específicas por tarefa, moldadas pela formação de cada profissão, exatamente a conclusão que os próprios autores do estudo destacam: a comunicação em paliativos é “task-specific”, não uma habilidade única que se domina de uma vez por todas.
O que o CUIDAR+ vê
Centralidade no Paciente: quando ninguém orienta os pais sobre o que dizer aos filhos, quem sofre em silêncio é a criança que já percebe que algo mudou em casa, mas não recebeu nenhuma explicação adequada para o que está vendo. Clínica Ampliada: cuidar de uma pessoa com doença que ameaça a vida inclui cuidar de quem está ao seu redor, os filhos inclusive; tratar essa conversa como um extra opcional, e não como parte do cuidado, é reduzir o cuidado paliativo ao corpo que está sendo tratado.
Honestidade Científica: este é um levantamento transversal, com um instrumento novo e ainda não validado, e os próprios autores tratam os resultados como exploratórios. A lacuna entre proficiência em explicar o próprio trabalho e proficiência em conversar com uma criança é real e bem documentada neste estudo; a explicação completa para essa lacuna, se é falta de treinamento, desalinhamento de currículo, ou algo que nenhum questionário capta, ainda não está confirmada, e é importante não fingir mais certeza do que os dados sustentam.
Da Suíça ao Brasil: formação em comunicação nos cuidados paliativos
A amostra do estudo é inteiramente suíça, um sistema de saúde com longa tradição em cuidados paliativos e cobertura universal, o que limita a generalização direta dos números para outros contextos, inclusive o brasileiro. Ainda assim, a lógica central, de que comunicar bem sobre uma doença não é a mesma competência que orientar uma família sobre como falar com os próprios filhos, não é específica da Suíça. No Brasil, a formação em comunicação clínica sobre doenças graves ainda ocupa espaço limitado na maioria dos currículos de graduação em medicina e enfermagem, e protocolos estruturados de comunicação, como o SPIKES, usado internacionalmente para dar más notícias, ou frameworks equivalentes voltados à comunicação com crianças sobre doença de um familiar, permanecem pouco disseminados fora de centros especializados em oncologia e cuidados paliativos. A residência médica e a especialização em enfermagem em cuidados paliativos no país seguem sendo, majoritariamente, oportunidades concentradas em poucos centros urbanos, replicando em escala menor o mesmo padrão de aprendizagem por observação e prática que o estudo suíço documentou.
Para o CUIDAR+, o caminho prático não depende de esperar por um instrumento validado de competência comunicacional para começar a agir. Passa por três frentes concretas: nomear a comunicação com filhos de pacientes como uma competência específica, a ser ensinada e supervisionada, não presumida como parte natural do cuidado; incluir, na formação continuada de equipes de cuidados paliativos, módulos dedicados às tarefas de comunicação mais delicadas e menos treinadas, não apenas às mais frequentes; e medir, mesmo que informalmente, o conforto das equipes com essas conversas, não apenas seu conhecimento técnico, já que este estudo mostra que os dois nem sempre andam juntos. Nenhuma dessas frentes exige provar uma relação causal que o desenho do estudo não permite. Exige, isso sim, levar a sério um achado replicado em toda a distribuição das 22 tarefas: saber o que fazer e sentir-se bem fazendo são competências diferentes, e a maior lacuna documentada neste estudo aparece exatamente onde a vulnerabilidade é maior, na conversa entre um adulto em cuidados paliativos, seus filhos pequenos, e o profissional que deveria ajudar a mediar essa ponte.
Baseado em: Staeck R, Egloff M, Zambrano SC (2026). Palliative care clinicians’ communication competence: A cross-sectional survey linking perceived proficiency and comfort, training, and practice of key communication tasks. Palliative and Supportive Care, 24, e219, 1-16. DOI: 10.1017/S1478951526103289. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).