Slides do Carrossel
“O paciente não vive mais apenas com a doença, mas progressivamente debaixo da sua antecipação.” A frase está em um ensaio de bioética clínica publicado em 2026 na revista Palliative and Supportive Care, e nomeia um problema que a medicina paliativa já sente na prática antes de conseguir explicar: o que acontece quando sistemas de inteligência artificial passam a prever, com meses de antecedência, quem vai piorar e quando. O autor chama esse peso de “fardo antecipatório algorítmico” (algorithmic anticipatory burden). O carrossel desta semana apresentou o conceito. Este artigo aprofunda os referenciais filosóficos que sustentam o argumento, os três mecanismos que compõem esse fardo e o que essa discussão, ainda sem paralelo direto na literatura brasileira, tem a dizer sobre o uso crescente de inteligência artificial preditiva na saúde no Brasil.
Um conceito novo para um problema que a tecnologia já criou
É importante situar o que este artigo é, e o que ele não é. Trata-se de um ensaio teórico, classificado pela própria revista como “Essay/Personal Reflection”, não um estudo empírico. Não há amostra, não há coleta de dados, não há estatística produzida pelo autor. O texto cita, apenas como pano de fundo, que sistemas preditivos de inteligência artificial já foram testados em contextos reais, como triagem de encaminhamento a cuidados paliativos e estimativa de risco de morte em curto prazo em câncer avançado. Mas o próprio ensaio não reporta esses números: ele os usa somente para justificar que a tecnologia já opera na prática clínica, e para em seguida perguntar o que ela faz ao tempo vivido por quem é observado por ela.
É nesse ponto que nasce o conceito central: o “fardo antecipatório algorítmico” é definido pelo autor como o peso existencial, relacional, temporal e institucional que surge quando predições mediadas por inteligência artificial sobre deterioração ou morte se tornam ativas, psicológica, clínica ou institucionalmente, antes de a pessoa estar pronta para habitá-las. Não é um efeito colateral raro. É, segundo o argumento do ensaio, uma consequência estrutural de transformar prognóstico em painel contínuo.
O oposto exato da hesitação do médico
A literatura de cuidados paliativos já nomeia, há duas décadas, um problema quase oposto a este. Murray e colaboradores descreveram, em 2005, a “paralisia prognóstica”: a hesitação do profissional de saúde em iniciar a conversa sobre cuidados paliativos por falta de confiança sobre o prognóstico. É um problema de excesso de incerteza, que atrasa o cuidado necessário.
O autor do ensaio propõe que o fardo antecipatório algorítmico nasce do problema inverso: não da falta de confiança prognóstica, mas do excesso de autoridade antecipatória de um prognóstico algorítmico já em funcionamento. O prognóstico clássico, argumenta o texto, é “interpretativo e relacional”, construído em conversa e revisável a cada consulta, “situado e mediado eticamente” pela relação entre profissional e pessoa. Já a predição algorítmica opera de outra forma: por meio de alertas, probabilidades, painéis e estimativas de risco continuamente atualizadas, ela “transforma progressivamente a possibilidade futura em visibilidade presente”. A diferença não é apenas técnica, é sobre quem, ou o quê, passa a guiar a forma como o tempo restante é vivido.
Três mecanismos para um só fardo
O ensaio descreve três mecanismos que, juntos, compõem esse fardo. O primeiro é a “hipervigilância antecipatória”: a visibilidade preditiva ativa uma atenção constante a sinais corporais que, antes da existência do painel de risco, talvez passassem despercebidos ou fossem interpretados com menos ansiedade. O segundo é a “identidade probabilística”: a pessoa passa a se compreender por categorias de risco, como “alto risco” ou “trajetória de fim de vida”, em vez de pela própria história. O autor ancora esse ponto na ideia de identidade narrativa do filósofo Paul Ricoeur, para quem a pessoa se constitui por meio de uma narrativa em permanente reconstrução entre passado, presente e futuro, não por um rótulo fixo atribuído de fora.
O terceiro mecanismo é a “colonização temporal”: o tempo que resta deixa de ser vivido como aberto, e passa a ser reorganizado psicologicamente em torno da deterioração esperada, mesmo em momentos de estabilidade real. Esse ponto dialoga com a fenomenologia de Martin Heidegger e sua noção de “ser-para-a-morte”: a ideia de que a pessoa se relaciona de forma autêntica com a própria finitude a partir de si mesma, em seu próprio tempo, não por meio de um cálculo externo que lhe é imposto antes da hora. Quando um algoritmo antecipa esse cálculo e o devolve como rótulo, argumenta o autor, ele pode interromper essa relação autêntica com o tempo, meses antes de a deterioração se tornar experiencialmente central para quem a vive.
Quando o painel ocupa o lugar do encontro
Além dos três mecanismos, o ensaio nomeia um risco relacional que talvez seja o mais silencioso de todos: a “compressão relacional”. Sistemas preditivos, argumenta o autor, podem estreitar o espaço narrativo, simbólico e interpessoal do encontro clínico, deslocando a atenção do profissional para painéis e escores antes do encontro propriamente humano com a pessoa. Esse argumento se apoia em outra costura filosófica que o ensaio articula: a ética da alteridade de Emmanuel Levinas, para quem a responsabilidade ética nasce do encontro direto com o rosto do outro, e não pode ser mediada ou substituída por uma representação abstrata dessa pessoa, como uma pontuação de risco.
O ensaio também recorre à crítica que Byung-Chul Han e Eric Topol fazem à cultura da otimização e da transparência algorítmica na medicina contemporânea: quanto mais a tecnologia promete prever com precisão, maior o risco de o cuidado ser lido como problema de dado a ser gerido, e não como relação a ser sustentada. É esse pano de fundo filosófico, mais do que qualquer número, que sustenta a citação com que o próprio autor resume o argumento inteiro: “o paciente deve permanecer mais importante do que a predição; a presença deve permanecer mais importante do que a otimização; a narrativa deve permanecer mais importante do que a classificação”.
O que o CUIDAR+ vê
Sob a lente da Centralidade no Paciente, este ensaio chega, por um caminho inteiramente filosófico, à mesma conclusão que orienta a prática do CUIDAR+: a pessoa e sua narrativa devem preceder qualquer classificação de risco, não vir depois dela. Um algoritmo pode calcular uma probabilidade. Só uma relação pode sustentar quem vive sob ela.
Sob a Clínica Ampliada, o argumento da compressão relacional é um alerta direto: quando o tempo da consulta se desloca da escuta para a leitura do painel, a clínica encolhe, mesmo que o volume de dados disponíveis sobre a pessoa aumente. Ampliar a clínica, neste debate, significa devolver tempo de presença ao encontro, não apenas tempo de leitura de dado.
Sob a Honestidade Científica, o próprio autor oferece a resposta ao problema que descreve: uma “ética prudencial da predição”, inspirada na phronesis aristotélica, o discernimento prático diante da incerteza, e não numa regra fixa. Essa ética assenta em três princípios: predição sem dominação existencial, ou seja, a inteligência artificial deve apoiar a decisão clínica, nunca reorganizar a existência do paciente em torno de si; salvaguardas relacionais e narrativas, para que saídas de sistemas de inteligência artificial sejam sempre dialógicas, nunca conclusões autoritativas; e a reformulação do papel da tecnologia como suporte relacional, nunca substituto da relação. Precisão computacional, como o próprio ensaio insiste, não é certeza objetiva: um rótulo de “alto risco” descreve uma probabilidade, não decide o destino de ninguém.
Da bioética à prática no Brasil e no SUS
O ensaio não discute o Brasil, e não poderia: é um argumento filosófico geral sobre a relação entre pessoa, tempo e predição algorítmica. Mas o cenário que ele descreve já está presente na saúde brasileira, mesmo sem o mesmo vocabulário. Escores de risco automatizados, alertas de deterioração clínica embutidos em prontuários eletrônicos e ferramentas de triagem preditiva vêm sendo adotados, de forma crescente, tanto em hospitais privados quanto em iniciativas de digitalização do Sistema Único de Saúde. A pergunta que o ensaio propõe, portanto, não é hipotética por aqui: quando um painel de risco aparece na tela do profissional brasileiro antes da consulta começar, ele está apoiando o julgamento clínico, ou já o antecipou?
Do ponto de vista regulatório, o Brasil deu um passo relevante nessa direção em fevereiro de 2026, quando o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, que trata especificamente do uso de inteligência artificial na prática médica. A norma assegura ao médico o direito de usar ferramentas de inteligência artificial como apoio à decisão clínica, à gestão em saúde e à pesquisa, mas reafirma que a autoridade final sobre diagnósticos, condutas e decisões terapêuticas permanece exclusivamente humana, com instituições de saúde sujeitas a avaliação do grau de risco algorítmico dos sistemas que adotam. É, na prática, uma versão regulatória do mesmo princípio que o ensaio defende por via filosófica: a tecnologia apoia, mas não substitui, o julgamento e a presença humana.
O que a resolução brasileira ainda não detalha, e o próprio ensaio ajuda a nomear como lacuna a ser observada daqui em diante, é justamente o território mais fino deste debate: não se um sistema de inteligência artificial pode apoiar o prognóstico em cuidados paliativos, mas em que momento e de que forma essa informação deve chegar até a pessoa que vive a doença, para que ela apoie o cuidado sem se tornar, antes da hora, uma sentença sobre o tempo que ainda resta. Regular o uso técnico da ferramenta é necessário. Regular, ou ao menos discutir com o mesmo rigor, o efeito dessa informação sobre a experiência subjetiva de tempo de quem a recebe, é o convite que este ensaio deixa também para o debate público brasileiro sobre inteligência artificial na saúde.
Baseado em: García Abejas A (2026). The algorithmic palliative medicine clinic: Prognosis, temporality, and the burden of anticipation. Palliative and Supportive Care, 24, e213, 1-5. DOI: 10.1017/S1478951526103198. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e científica, em conformidade com a CFM Resolução nº 2.336/2023, sem promessa de resultado, depoimento como prova de eficácia, comparação antes/depois ou caso clínico real identificável. Responsável científica: Dra. Isis A. Cunácia Massaro, CRM/SP 92.540, RQE 54.561 (Clínica Médica, Nefrologia, Cuidados Paliativos, Bioética Clínica).